Arquivos do Blog

2º Congresso Nacional do Samba e balanço da programação do evento

programacaosamba

Programa Congresso Nacional do Samba

No sábado foram abordados os temas, sempre com uma palestra seguida de mesa redonda: “A Diversidade do Samba e o Patrimônio Cultural Imaterial”, “O Samba e suas Performances”, “Samba, Carnaval e Redes Sociais” e “Samba, Carnaval e Direitos Autorais”.

“A Diversidade do Samba e o Patrimônio Cultural Imaterial” iniciou com uma brilhante apresentação do autor e músico Spirito Santo, que falou do seu livro Do Samba ao Funk do Jorjão, com prefácio de Nei Lopes. Como é difícil a inserção da cultura negra na academia, e como os dados coletados vão de encontro a alguns estudos feitos às pressas, onde um “congueiro de uma semana” coleta os dados superficiais e produz teses, dissertações e até livros teóricos sobre o assunto.  E alguns enganos e erros que ocorrem na repetição do que ele chama de “mitos do samba” dentro da bibliografia adotada dentro das Universidades.

O outro destaque desta temática  foi o estudo da professora de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina, Tereza Virgínia de Almeida que também é compositora e produtora cultural. No estudo “Samba e Memória Musical – da tradição à transcontextualização”, a pesquisadora reflete sobre a presença do samba e suas mudanças no contexto contemporâneo pós-moderno apresenta conceitos como nomadismo; movência; intercâmbio dos conceitos de tradição e ruptura.

“Acredito que pensar o samba como patrimônio, no atual contexto, marcado e demarcado pelos interesses do capitalismo tardio, passe por encontrar estratégias para que as ações sociais de preservação e transcontextualização possam, cada vez mais, ser exercidas por sujeitos efetivamente comprometidos com a dívida histórica que esta sociedade, infelizmente, ainda preserva em relação a seus afro-descendentes”.

Mas quem pensa que só havia “samba tradicional” no evento se enganou, o gênero e suas influências/influenciadores foram intensamente debatidos: MPB, jongo, funk, jazz, paradinhas do mestre André e Jorjão, bossa nova, maracatu… e novos grupos como o Metá Metá apresentado por Isabela Martins de Morais e Silva que procura “mesclar em suas canções as heranças do samba com as narrativas oriundas das religiões de matriz afro-brasileira”

O Samba e suas Performances” chamou atenção com a professora  Denise Mancebo Zenocola, que na sua análise sobre o samba de gafieira fala sobre o que há de diferente na relação entre feminino e o masculino nesta dança – “ratifica a discussão do corpo na sua relação social social e de subjetividade; ressalta a espontaneidade”. No tema “Samba, Carnaval e Direitos Autorais” José Vaz de Souza Filho foi destaque apresentando  exemplos históricos das problemáticas de direito autoral dentro do samba, as vendas de autoria,  e vislumbrando algumas soluções.

Resenha do livro de Spirito Santo – Do Samba ao Funk do Jorjão

Ouça o CD Aluada, de Tereza Virgínia

Resumo dos trabalhos apresentados com minicurrículo dos pesquisadores

Na manhã de domingo foram abordados os temas, também com palestra seguida de mesa redonda: “Samba, Economia Criativa do Carnaval e Globalização” e “Samba e Territorialidade”. Em “Samba e Territorialidade” refletiu-se desde o samba paulista, de uma roda de samba em Belo Horizonte, narrativas do “povo do santo” – que criam e fazem a manutenção dos terreiros no Rio de Janeiro, até a “Pequena África”. Em “Samba, Economia Criativa do Carnaval e Globalização” Simone Aparecida Ramalho e Ana Luisa Aranha e Silva apresentam modelo de economia inclusiva:

” a experiência do projeto de geração de trabalho e renda Ala Loucos pela X, fruto da parceria entre entidades do campo saúde mental e o GRCES X9 Paulistana, que há 12 anos vem tecendo vivas redes solidárias no carnaval paulistano. Neste projeto, homens e mulheres moradores da periferia de São Paulo, discriminados pela psiquiatrização e incapacitação social, histórica e socialmente construídas que lhes confere dupla exclusão social, à semelhança de outros grupos envolvidos no campo do samba e do carnaval, ao tornarem-se aderecistas de grandes agremiações paulistas, trabalhando a partir dos princípios da economia solidária, vêm demonstrando que possibilidades potentes de geração de trabalho, renda e cidadania podem ser incluídas na economia criativa do carnaval, sem que nos distanciemos da raiz política emancipatória original e primeira do samba, mesmo diante das proporções exigidas pelos desfiles das grandes agremiações carnavalescas”

Infelizmente não foi possível acompanhar a lavagem da Pedra do Sal, que estava marcado para as 7 horas e iniciou após as 9:30 – registramos a espera e a conversa animada das baianas. Mas… o fotógrafo português Miguel do projeto Fui? cedeu fotos, bem como a pesquisadora Isabela Morais que foi a palestra no segundo dia – confira.

Os pontos positivos  do evento foram mesclar o cultural com o acadêmico, uma cobertura jornalística carinhosa de vários meios de comunicação e atendimento da organização atencioso. A vasta gama de profissionais e acadêmicos interessados e com trabalhos interessantíssimos no assunto também foi outro ponto alto do evento: estudiosos de cultura negra e relações raciais, cientistas sociais, sociólogos, literatos, historiadores, museólogos, antropólogos, músicos, compositores, dançarinos, políticos, filósofos, pedagogos,folcloristas, etnólogos, artistas plásticos, membros das comissões julgadoras do carnaval, jornalistas, administradores, gerenciadores de projetos, carnavalescos, advogados, cientistas políticos, cineastas, promotores de eventos, produtores musicais, estilistas, designers, atores, redatores, documentaristas…

Banner congresso

Apesar de problemas amadores na organização do evento: chamar os trabalhos selecionados em cima da hora, sem haver tempo para os pesquisadores pedirem recursos para as universidades (ocasionou muitas faltas); atrasos em excesso;  interrupção de mesas sem permitir que a platéia fizessse perguntas para os autores que vieram de outros estados… outra crítica a se pensar e que vários presentes citaram – apresentações em paralelo com temáticas em comum deram a sensação de termos perdido muita coisa interessante.   O balanço final do evento foi positivo, e que nas próximas edições seja primoroso para que o público possa aproveitar melhor as reflexões. O samba, a comunidade que o produz e os pesquisadores que trabalham temas que da cultura negra merecem isso, e muito mais.

Leia mais:

“fui?” é uma ação provocatória entre a arte e a comunidade, ao misturar os rostos e recantos de duas regiões portuárias: a cidade do Porto (Portugal) e o porto do Rio de Janeiro (Brasil)

Acompanhe ao vivo a cobertura pela Rádio online com entrevistas e trechos do evento

História do Samba – superinteressante

2º Congresso Nacional do Samba – portal do carnaval

Abertura do 2º Congresso Nacional do Samba: Edison Carneiro, José Ramos Tinhorão, Haroldo Costa e Sérgio Cabral.

O evento comemora os 50 anos da Carta do Samba, que criou o Dia Nacional do Samba, bem como os 100 anos de nascimento do presidente e relator do primeiro evento, Edison Carneiro. A idéia da reedição do evento surgiu no ano passado com Iran Araújo e Damião Braga da Associação dos Quilombos da Pedra do Sal, juntamente com o professor Jair Martins Miranda da Unirio que coordena o 2 Congresso. Muita gente não sabe que a data foi criada por conta do I Congresso Nacional do Samba.

Redigiu a  Carta do Samba, que instituiu o 2 de dezembro como dia Nacional do Samba

Redigiu a Carta do Samba, que instituiu o 2 de dezembro como dia Nacional do Samba

O I Congresso Nacional do Samba foi realizado também na Câmara Municipal do Rio de Janeiro -, em uma época em que se acreditava que o samba estava “agonizando” teve participação de Pixinguinha, Ary Barroso, Aracy de Almeida e Almirante, dentre outros. Coordenado em 1962 pelo escritor Edison Carneiro para repensar o gênero, sua preservação e refletir sobre o futuro do samba e, a Carta do Samba foi redigida por Carneiro I Congresso. Nas palavras de um dos homenageados da noite Haroldo Costa:

“Carneiro foi além – estabeleceu algumas normas, discutiu alguns capítulos de importância da história do samba naquela década. Importante reconhecer que muitas das questões que foram levantadas – foram desenvolvidas, ampliadas, e adotadas. Gostaria de lembrar de uma só: a presença da escola de samba no âmbito da questão social, de dar voz à sua comunidade, de proporcionar  estudos, profissões através de cursos profissionalizantes e atravéz de um empenho na parte esportiva. Isso tudo foi preconizado naquela primeira carta.”

Na abertura do 2º Congresso Nacional do Samba o vereador Reimont entregou do Conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto aos representantes do escritor José Ramos Tinhorão, e post-mortem a Edison Carneiro. Foram homenageados ainda os escritores Haroldo Costa e Sérgio Cabral.

cabralharoldotinhorao

Sergio Cabral, Haroldo Costa, José Ramos Tinhorão

Estavam presentes pesquisadores, o deputado Chiquinho da Mangueira e personalidades do samba. Mas o que teve destaque foi a participação da Associação das Velhas Guardas da Escolas de Samba do Rio de Janeiro, entrando seus belos estandartes.  E depois, um coquetel muito animado. Para completar a noite, na frente da câmara havia um evento com música e manifestações culturais encerrando o Mês da Consciência Negra. Emocionante –  Veja na galeria de fotos que será atualizada ainda esta semana, a arquitetura do local é muito bem conservada.

!

Para saber mais: acompanhe a cobertura do site carnavalesco

Leia a Carta do Samba 1962

Matéria do jornal O Dia sobre o evento, bem como detalhes sobre o homenageado Haroldo Costa

No evento foi falado que esta música traduzia o espírito da época. Vídeo filmado na residência de João Nogueira e possui a participação além de Beth Carvalho do Clube do Samba: Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Sônia Lemos, Nelson Sargento, Sérgio Cabral, Dominguinhos do Estácio e muitos outros. Samba de Nelson Sargento.

O 2º Congresso Nacional do Samba é realizado com apoio de voluntários e do projeto de extensão Portal do Carnaval, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). O Portal do Carnaval será lançado na internet em janeiro de 2013, e  terá como objetivo permitir a troca de informações, serviços, produtos, negócios e perfis de profissionais envolvidos. O projeto conta com financiamento do Serviço Brasileiro de Apoio à Pequena e Média Empresa (Sebrae) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O evento também foi feito em parceria com instituições ligadas ao samba carioca: Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso (Lesga) e a Federação dos Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro (Fbcerj).

Crônica do julgamento de Galileu – Poder & Ciência

Gostei muito destes trechos, e li parte deles no Clube da Leitura.  Como o livro está esgotado e a leitura rendeu bons papos tomei a liberdade de reproduzir trechos aqui. O livro é de autoria de Péricles Prade:

capa do livro de pericles prade

Capítulo I – O anunciador de céus novos

Antes de Galileu existiam óculos havia quatro séculos, Mas ninguém em quatrocentos anos tivera a curiosidade, a idéia de ver o que aconteceria se, em vez de se servir de um par de óculos, fossem empregados dois pares ao mesmo tempo.

A verdade é que o fabricante de óculos não era um óptico, mas um artesão. Ele não fabricava instrumentos ópticos; construía umas engenhocas. Por isso o nascimento da óptica científica não constitui o desenvolvimento de uma tradição artesanal, mas antes, a ruptura de tal tradição que, fechada em si mesma, não levava a parte alguma.

Talvez haja uma verdade profunda na narração, aparentemente lendária, que atribui a invenção do primeiro óculo de alcance ao acaso, à brincadeira do filho de um fabricante holandês daquele instrumento.

A inovação técnica, portanto, foi realizada por alguém que a tal não se propôs. Daí que a questão da prioridade na fabricação de telescópios, muitas vezes discutida, não se reveste de grande importância.  ……

Além do mais, a invenção (do latim invenire, achar) de Galileu foi a de “achar” a intuição, a liberdade, a coragem, a curiosidade, a louca temeridade de apontá-lo para o céu, considerado desde milênios como a morada do Deus judeu-cristão Iahweh, da sua Corte de anjos e de profetas e santos do Antigo e do Novo Testamento, para nele explorar o espaço-tempo da imensidade eterna, o jogo desconhecido das luzes e sombras entre estrelas e planetas, o ritmo-harmonia do movimento das esferas, a cara dos impassíveis, inalteráveis corpos celestes, com infinita paciência, visando a descobrir-lhe talves o mecanismo secreto.

A primeira revelação do pequeno telescópio foi a existência de quatro satélites de Júpiter.

À notícia da descoberta galileiana, seus colegas de universidade responderam de imediato, denunciando-lhe os métodos como absurdos e seus resultados como ímpios. Antes de mais nada, devia tratar-se, naturalmente, de um erro de óptica.

De fato, a respeito de tais satélites nada dissera Aristóteles. Ora, impossível Aristóteles ter errado. Logo, não existiam satélites de Júpiter. Do mesmo modo, também a Bíblia os ignorava.

Na realidade, supunham os corpos celestes não podiam ser senão 7 (o sol, a lua, e os cinco planetas até então conhecidos: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno), porque 7 é um número sagrado.  …

Para a maioria as descobertas não passavam, diziam, de ilusão óptica, de defeitos do instrumento ou até de diabólico engano.

Ninguém, penso, acreditavaa que Galileu e seus amigos mentissem. O problema estava na interpretação. Não faltava, também, quem, por mais que quisesse, não “podia” acreditar no óculo. A esse respeito era contada uma anedota, por assim dizer típica e referente ao peripatético Cremonini, um colega de Galileu na Universidade de Pádua, que se recusou a olhar através do óculo.

Cremonini naquele momento era a glória de Pádua e o seu ordenado era o dobro do de Galileu. …..

Tal como todos os aparelhos que se interpõe entre o olho e o seu objeto, o óculo astronômico, em vez de melhorar a observação, deforma antes e falseia a visão. Assim, negando-se a ver o que o outro via, Cremonini não queria sair do próprio universo, pois desconfiava do universo “ilusório” de Galileu.

O próprio Kepler, …no princípio mostrou-se cético, e, mesmo depois de recebido o óculo, construído por Galileu, por intermédio do eleitor de Colônia, precisou de mais de duas semanas de provas e contraprovas para chegar a concluir que aquele sábio tinha razão.

Era o fim de Agosto de 1610. Decorrera um ano desde as primeiras observações e descobertas galileianas.

Kepler, de repente, transformou-se em neófito da nova fé e em poucas semanas redigiu o Relatório de observação sobre os quatro satélites de Júpiter, um notável livrinho que lançava as bases teoréticas do telescópio. Usando, pela primeira vez, o termo satélite. Ao amigo italiano, pioneiro solitário, Kepler repete com alegria as últimas palavras do imperador Juliano, derrotado por uma força sobre-humana: Vicisti, Galilaee!

No mês de julho de 2012 foi aberta uma exposição pública dos arquivos secretos do Vaticano. A Globo News fez um especial, e compara Giordano Bruno (que não renegou seus conhecimentos) a Galileu.

Canção do Exílio – contextos (parte 2)

Outras ligações da Alemanha e da língua alemã com Gonçalves Dias e contextos históricos

Podemos começar a entender a ligação da epígrafe de um famoso autor alemão em obra indigenista/romântica brasileira. A Canção de Exílio abre a publicação de Gonçalves Dias, e tem como epígrafe fragmento do Lied de Mignon (também traduzido como Balada ou Canção), retirado do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, aqui traduzido por Manuel Bandeira (1952):

 

“Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,

Conheceis o país onde florescem as laranjeiras?

Im dunkeln Laud die Gold-Orangem glühn,

Ardem na escura fronde os frutos de ouro,

Kennst du es wohl?

Conhecê-lo?

–         Dahin, dahin!

– Para lá, para lá

Möch ich… ziehn.

quisera eu ir!” Johann Wolfgang von Goethe

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

A ligação de Gonçalves Dias com a cultura alemã não era apenas ocasional, ou apenas com um de seus maiores autores: alcançava o interesse pela língua – inclusive com traduções de Schiller -, conforme verificamos em análise literária:

“Um primeiro contato com o texto de Gonçalves Dias e, logo, salta aos olhos a justeza encontrada pelo poeta maranhense na escolha da epígrafe que, retirada do romance de formação, Os Anos de Aprendizagem de Wilhem Meister, de Goethe, acomoda-se perfeitamente ao espírito da Canção do exílio. Ao escolher o fragmento da Balada de Mignon […] Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo que também vai percorrer a sua Canção, isto é, o desejo de voltar à Pátria. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo, já quase no final do livro, observa-se a moça agonizando e o seu médico, vendo-se a sós com Wilhem, afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “A natureza estranha dessa boa criança, de quem falamos agora, consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria, e o desejo pelo senhor, meu amigo, são, poderia mesmo dizer, os únicos elementos terrenos nela; ambos se tocam numa distância infinita; ambos são inacessíveis para essa alma singular”.

Se, por um lado, o drama da moça é marcado pela impossibilidade de realização de seu duplo desejo; por outro, o simples fato de o autor brasileiro ter recorrido ao referencial alemão exemplifica o diálogo constante que este, sempre ligado aos grandes temas, trava com a literatura européia.7 É possível perceber ainda que tanto no trecho do poema quanto no fragmento acima, o desejo de voltar é perpassado por uma forte nostalgia que, por sua vez, emblematiza a figura do expatriado. Portanto, a epígrafe da Canção do Exílio, apesar de Augusto Mayer questionar a liberdade com que Gonçalves Dias mutilou o poema original,8 apresenta, de antemão, dois dos motivos românticos que, juntamente com a metáfora da natureza, predominam no poema gonçalvino, ou seja, a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal.”

7 Gonçalves Dias nutria, por exemplo, uma profunda admiração pela literatura alemã, tanto que, durante o ano letivo de 1843/1844, o poeta começou a estudar alemão para poder ler diretamente os poetas dessa língua. Em carta a Teófilo Leal, datada de 27 de agosto de 1843, ele escreve: “Se eu contasse um pouco mais comigo – por outra se eu soubesse grego e alemão – partia já para o Rio. Assim continuarei a escrever o meu poema – o meu romance e as minhas poesias soltas – estudarei alemão – e creio que um ano não será mal empregado”. Cf. PEREIRA, L. M. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1943. p. 50.

8 Cf. MAYER, A. Sobre uma epígrafe. In: ___. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964. p. 95-99.  (MARQUES, p. 81-82)

O título do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre também é traduzido como “Os Anos de Aprendizagem” ou “Os Anos de Aprendizado”de Wilhelm Meister, e inaugurou o gênero que se chama Bildungsroman, traduzido como “Romance de Formação” –  o personagem é “exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.” (WIKIPEDIA).  Assim como apontamos anteriormente diferenças entre o romantismo europeu e o brasileiro, a seguir apresenta-se a “busca da essência da nacionalidade”

“Na Europa o problema se definiu primeiro na Alemanha e estava ligado ao longo processo de enfraquecimento da cultura alemã pela sedução que a civilização francesa vinha exercendo, desde o século XVII, sobre a aristocracia dominante nas inúmeras unidades políticas em que se dividia o país. De um modo geral, os românticos europeus, em sua aspiração de reencontrar o caráter da nação “em sua pureza original”, voltaram-se para suas origens históricas (acarretando o amplo movimento de revalorização da Idade Média) ou para o povo, transformado em quase uma entidade mítica, porque nele, muito menos contaminado do que as classes eruditas pelos valores “impuros” (alienígenas), estaria preservada a alma nacional (daí as inúmeras complilações de cancioneiros populares, bem como o surgimento do estudo científico do folclore, que se inicia justamente na Alemanha).” (ALMEIDA, p.43)

 

Goethe na Italy by Johann Heinrich Wilhelm Tischbien (1787)

Outros dados importantes a serem destacados sobre “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”: o personagem se associa à uma “sociedade secreta”, e muitos dizem que seria uma referência à Maçonaria – muito em voga na época (Goethe foi associado a um ramo chamado Illuminati); e que o livro foi publicado logo após o estrondoso sucesso dos “Sofrimentos do Jovem Werther”, que causou uma onda assustadora de suicídios na Europa.

Sobre o poema afirma CANDIDO (2009) que “A celebração da natureza, por exemplo, seja como realidade presente, seja evocada apela saudade, em peças que ficaram entre as mais queridas, como CANÇÃO do EXÍLIO…” É de VALLE (2009) uma observação que contrapõe a vida real do poeta à imagem do poeta romântico com ares de trovador:

“É durante os sete anos que esteve pela primeira vez em Portugal, que escreve alguns poemas de seu primeiro livro, aí sentindo as saudades do sabiá e das palmeiras com a “Canção do Exílio”. Note-se que, de certa forma, para um jovem do interior uma vida de estudante em Coimbra, desfrutando do que culturalmente desejava, rodeado de bons amigos, e ainda tendo algumas namoradas, é curiosa a nostalgia por sua terra natal, onde nada disto desfrutava… Diga-se de passagem que Gonçalves Dias era pardo (o que não era bem visto) e de somente um metro e meio de altura, o que, para um homem não é considerado atraente. Porém, seja pelo que for, cativava as mulheres. Pela vida toda, teve muitas namoradas, às vezes mais de uma ao mesmo tempo, e muitas deixaram por escrito seu encanto pelo poeta! Certa vez quase morre por ter sido flagrado com uma mulher comprometida, coisa que comprova sua agitada vida amorosa… De que tanto se queixava o romântico?”

Canção do Exílio     Gonçalves Dias  – 1846

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá

Nosso céu tem mais estrelas

O eu-lírico de “Canção” possui diferentes instrumentos que prestigiam temas diversos: Deus, o amor e a pátria. A ambientação criada pela escolha dos instrumentos (“harpa religiosa”, “lira”, “alaúde”) e seus acessórios (“festões”, “engrinaldada”) determinam a relação do poema com o medievalismo. Ao mencionar que seu alaúde pertencera a antigos cantores de trovas de amores, o poeta incorpora, através do instrumento herdado, a tradição dos trovadores medievais. Dessa forma, há uma justificação para o medievalismo gonçalvino, ele é uma herança dos antigos bardos. (CHIARI, 2011)

Da mesma maneira que teve reconhecimento, Gonçalves Dias teve ferrenhos críticos, aqui reproduzo um que discute se a literatura é brasileira ou não, e outro, escritor da época, que talvez coloque na opinião do personagem a discussão que acontecia sobre os escritores românticos:

“sem língua à parte não há literatura à parte…e essa polêmica secundária que alguns poetas, e mais modernamente o Sr. Gonçalves Dias parecem ter indigitado: saber, que a nossa literatura deve ser aquilo que ele intitulou nas suas coleções poéticas – poesias americanas.  […]

Com pouca exceção, todos nossos patrícios que se haviam erguido poetas, tinham-se ido inspirar em terra portuguesa, na leitura dos velhos livros, e nas grandezas da mãe pátria…Não há nada nesses homens que ressumbre brasileirismo; nem sequer um brado de homem livre da colônia – nada.” (RONCARI, p. 309)

“Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas das florestas, nas torrentes das serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite, como se acordassem procurando túmulos, e perguntando como Hamleto no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração: que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos, que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores – que tudo isto é sublime nos livros mas é soberanamente desagradável na realidade” (AZEVEDO apud CANDIDO, p.333)

Esperamos ter costurado através dos panoramas apresentados, os enquadramentos necessários para um melhor entendimento do contexto de produção. Inclusive, em novembro de 2011 completaram 147 anos da morte do autor. Assim, poder-se-ia através de análises esquematicamente aprofundadas levar-se adiante os estudos desta época de formação da Literatura Brasileira nos preparando para a comemoração dos 150 anos.

BIBLIOGRAFIA

ALENCAR, José de. Bênção Paterna (prefácio do autor). Obras completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.

ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

BANDEIRA, Manuel.Gonçalves Dias: esboço biográfico. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1952.

CANDIDO, Antonio. O Nacionalismo Literário. Formação da literatura brasileira – momentos decisivos. São Paulo, Rio de Janeiro: FAPESP, Ouro sobre Azul, 2009.

CHIARI, Giseli Gemmi. Presença do Medievalismo em Gonçalves Dias. In Fólio – Revista de Letras, vol. 3 no 1. Vitória da Conquista: UESB, 2011.

Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/folio/article/viewFile/554/613

DENIS, Ferdinand. Resumo da História Literária do Brasil. In GUILHERMINO CÉSAR (seleção e apresentação. Historiadores e críticos do romantismo. Rio de Janeiro, São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, Editora da Universidade de São Paulo, 1978.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Indianismo Revisitado. Gatos de outro saco. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LIMA, Luiz Costa. Natureza e História nos Trópicos. In O Controle do Imaginário – Razão e Civilização no Ocidente. São Paulo: Brasilense, 1984.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de. Discurso sobre a História da Literatura do Brasil. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do Pensamento Crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

MARQUES, W. J. O poema e a metáfora. In Revista Letras, n. 60, p. 79-93, jul./dez. Curitiba: Editora UFPR, 2003. Disponível em: <http://www.ufscar.br/~neo/Estudos/arquivos/opoemaeametafora.pdf&gt;

RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: EDUSP, 2002.

SALLES, Ricardo. O Papo Amarelo do Tucano: A Cultura Imperial. In Nostalgia Imperial: A formação da Identidade Nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbpooks, 1996.

VALLE, Gerson. Gonçalves Dias e o Romantismo. Palestra na Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, Petrópolis em 18/06/2009. Disponível em: <http://www.rauldeleoni.org/academicos_titulares/gerson.html&gt;

WIKIPEDIA. Bildungsroman. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bildungsroman

 

REFERÊNCIAS

 ABL. Biografia de Gonçalves Dias. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=866&sid=183 e

CYNTRÃO, Sylvia Helena. A ideologia nas canções de exílio: Ufanismo e Crítica. Brasília, 1988. Dissertação apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Disponível em:

http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/3969/1/1988_SylviaHelenaCynt%C3%A3o.pdf

WIKIPEDIA. Johann Wolfgang von Goethe. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe

VOLOBUEF, Karin. Friedrich Schiller e Gonçalves Dias. Pandaemonium germanicum 9/2005, 77-90. São Paulo: USP, 2005. Disponível em:

http://www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum/site/images/pdf/ed2005/Friedrich_Schiller_e_Gonalves_Dias.pdf

%d blogueiros gostam disto: