Arquivos do Blog

William de Moura – vídeo sobre o fotógrafo carioca

Flávia Moura
Nilson Guimarães
Márcio Santos
Um trabalho em forma de vídeo foi elaborado para a disciplina de Introdução à Fotografia pelo grupo. Obedecendo uma lista proposta em temas, a tarefa consistiu em pesquisar a vida de um fotógrafo.
Flávia Moura comentou que seu pai  exerceu esta profissão por muito tempo,  e recebeu sugestão da professora que desenvolvessem  sobre o trabalho de William: descobrir no que ele foi relevante para a história da fotografia e culminar com a releitura de imagens.
William de Moura e o Rio de Janeiro

William de Moura e o Rio de Janeiro

William de Moura é carioca, e mostrou pioneirismo ao desenvolver ensaios fotográficos em grandes revistas de surf (sua paixão). Mas não deixou de cobrir celebridades, gastronomia, futebol, basquete, cotidiano urbano, música, natureza,  esportes radicais… além de atuar também como editor de imagens e produzir peças publicitárias para  jornais e revistas.  E, claro que esta competência e sensibilidade teve muitas repercussões internacionais! São temas dos mais variados: veja algumas imagens na página da Agência O Globo, um dos veículos de comunicação onde atuou.

Resenha sobre a exposição da Revista O Cruzeiro e a fotografia no Brasil, no IMS

Flavia Moura

1) Escrever resenha sobre a exposição no Instituto Moreira Salles – Um Olhar Sobre “O CRUZEIRO”: as origens do fotojornalismo no BrasilExposição O Cruzeiro Instituto Moreira Salles

Num primeiro momento, a impressão que se tem daquele espaço, o Instituto Moreira Salles, é de chocar qualquer simples mortal, tal a grandiosidade.

E pensar que ali havia um morador, deixa qualquer trabalhador comum de queixo caído, haja visto que aquilo tudo foi erguido nos anos 1950. Depois vem a alegria de estar entrando naquele espaço, mesmo sabendo que esse sentimento não habita quem ali trabalha ou frequenta corriqueiramente.

Então vem a euforia.

Entrar na primeira sala é de tirar o fôlego!

Primeiro, as fotos aparecem todas em PB, e o impacto é imediato, porque a matéria em voga é o adentramento dos sertanistas em aldeias do Alto Xingu na década de 1950. São retratados os txucarramães e caiapós.

A textura das imagens, as feições, a luz, tudo isso é acentuado pela imagem em preto e branco.

As fotos mais hipnóticas foram primeiramente a dos indígenas, pela plasticidade, depois a dos negros. Foram as mais belas.

Acompanhando a história do Brasil através das salas, tive conhecimento de alguns fatos emocionantes.

Uma tribo indígena esfuziante com a passagem do avião dos irmãos sertanistas Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas; o ritual de dança da tribo caiapó datada de 1952, onde o que desperta nossa atenção é o alinhamento da tribo, a foto de um casal indígena e seus traços singulares ainda mais acentuados pela ausência de cor.

Dos fatos citados acima, as fotos que mais me atraíram pela beleza, pela textura da imagem e vivacidade, foram de autoria do fotógrafo e repórter colaborador da revista, Jean Manzon.

Já em outra sala, me deparei com os fait divers dos mais variados assuntos.

Como cenas do cotidiano das grandes cidades do Rio e São Paulo num desfile de sete de setembro; o registro do primeiro verão carioca e a máquina que entrou literalmente dentro d’água para flagrar um mergulho na praia do Arpoador e o caso do sertanista que se apaixonou pela índia Diacuí, que a levou para casarem-se na Igreja da Candelária, tornando-se assim, o acontecimento do ano, para depois entrar num ferrenho choque cultural que culminou em tragédia. Pouco antes de de dar à luz à sua única filha, ele fez uma tentativa de se separar. Tendo sido aconselhado por amigos, resistiu até pouco antes do parto, quando viajou a trabalho, deixando Diacuí entregue a própria sorte. Por complicações no parto, ela veio a falecer.

Passado e presente também se confundem nessa exposição quando nos deparamos com uma espécie de tablet gigante, que nos possibilita passear virtualmente pelas páginas da revista O Cruzeiro ou simplesmente contemplar o instrumento de trabalho dos fotógrafos que compunham seu casting na época.

O espectador se sente quase tentado a quebrar o vidro e tentar manipular a câmera. Isso, certamente, os mais aficcionados por fotografia.

Me deparei com modelos de Rolleiflex, Graflex (que me pareceu uma miniatura de uma câmera obscura) e Laika ou Leitz.

Pude ler um pouco da coluna “Pausa para Meditação”, onde me deparei com o registro de uma foto-novela, coluna essa que virou tendência até meados dos anos 1980 em revistas como Fatos e Fotos, Amiga, etc.

Foi possível ver a rivalidade entre a Revista O Cruzeiro e a Life americana, que levou o troco quando um repórter retratou as condições de uma favela carioca.


O repórter e fotógrafo Henri Ballot não deixou barato. Visitou as condições de uma favela em Nova York e pôde registrar a forma deplorável em que viviam seus moradores, como o caso de um menino que dormia com baratas passeando por seu corpo, o que despertou o interesse do governador americano, tal a repercussão do caso. O que de certa maneira, teve um final positivo com a melhoria de vida daquelas pessoas, mesmo debaixo de protestos do repórter americano, que insistia em dizer que as fotos de Henri Ballot teriam sido forjadas.

Tantas histórias e fatos dificultam a escolha de uma única foto ou cena.

Fato é, essa viagem histórica pela atmosfera da revista O Cruzeiro, valem muito mais que duas laudas, assim como uma única visita à exposição, ainda é pouco.

Para outros detalhes sobre a exposição, que aconteceu até 6 de outubro de 2012 : http://ims.uol.com.br/Radio/D1040

Tarefa da disciplina Introdução à Fotografia. Muitas das imagens pertencem ao acervo IMS. Outras foram cedidas por outros acervos: jornal Estado de Minas, Fundação Pierre Verger, APESP (Acervo Público do Estado de São Paulo), Coleção Samuel Gorberg e os acervos pessoais de Luiz Carlos Barreto e Flávio Damm.

A arte como procedimento – estranhamento, singularização, desfamiliarização

Knife grinder - "o afiador" de Malevich

“A arte como procedimento” – quase um fichamento e algum contexto histórico

Viktor Borisovich Chklovski fundou o OPOYAZ (Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética), um dos principais grupos do Círculo Lingüístico de Moscou que influenciou autores como Bertold Brecht, dentre outros estudiosos e cineastas de renome. Crítico literário, escritor e cenógrafo é considerado por muitos o pai do formalismo russo.

Segundo Eagleton, os formalistas surgiram na Rússia antes de 1917 e suas idéias floresceram durante as décadas de 1920 e 30 até serem silenciadas/censuradas pelo stalinismo.

O texto “O que é literatura?” afirma que o formalismo foi a aplicação da lingüística ao mundo da literatura “…. a literatura não era uma pseudo-religião, ou psicologia, ou sociologia, mas uma organização particular da linguagem. Tinha suas leis específicas suas estruturas e mecanismos, que deviam ser estudados em si, e não reduzidos a alguma outra coisa.”

Chklovski cunhou e discutiu em seus textos o conceito de ostranenie, que pode ser traduzido como estranhamento, singularização ou desfamiliarização. O título do artigo possui variação menor “A Arte como processo” ou “A Arte com procedimento”. O nome do autor também possui outras grafias como Shklovskii ou Shklovsky, devido às transliterações do cirílico para diferentes línguas.

No texto o autor inicia expondo o conceito “A arte é pensar por imagens” de Potebnia e os seus seguidores diziam que não existe arte e poesia sem imagem. Entre os discípulos, com destaque para Ovsianiki-Kulikovski que aprofundou estudos iniciais de Potebnia no que se refere à fábula e serviu de fundamento para tentar estender e aplicar o conceito à música, arquitetura e poesia lírica. Após 15 anos de trabalho infrutífero Ovsianiki-Kulikovski isolou “…a poesia lírica, a arquitetura e a música, e a ver aí uma forma singular de arte, arte sem imagens, e a defini-las como artes líricas que se dirigem imediatamente às emoções.”

Chklovski afirma que a fábula é mais simbólica que o poema, o provérbio mais simbólico que a fábula… e que o problema foi esta e outra definição “A arte é antes de tudo criadora de símbolos” resistiram e sobreviveram à derrocada da teoria sobre a qual estava fundada, mais intensamente na corrente simbolista e entre os seus teóricos. “…a poesia = a imagem, serviu de fundamento a toda teoria que afirma que a imagem = o símbolo = a faculdade de a imagem tornar-se um predicado constante para sujeitos diferentes. Esta conclusão seduziu os simbolistas… pela afinidade com as suas idéias, e se acha na base da teoria simbolista.”

A partir deste primeiro momento o texto “A arte como procedimento” se contrapõe aos primeiros argumentos apresentados e começa a desenvolver e apresentar conceitos que ajudarão a apresentar de maneira melhor a singularização:

– “…as imagens são quase que imóveis; de século em século, de país em país, de poeta em poeta, elas se transmitem sem serem mudadas.”

– “Todo o trabalho das escolas poéticas não é mais que a acumulação e revelação de novos procedimentos para dispor e elaborar o material verbal, e este consiste antes na disposição das imagens que na sua criação.”

– “… o pensamento por imagens não é o vínculo que une todas as disciplinas da arte, mesmo da arte literária; a mudança das imagens não constitui a essência do desenvolvimento poético.”

Ainda destaca que Potebnia não distinguia a língua da poesia da língua da prosa, que ele não percebeu que existem dois tipos de imagens: “a imagem como um meio prático de pensar, meio de agrupar os objetos e a imagem poética, meio de reforçar a impressão.” E se utiliza de autores como Spencer, R. Avenarius, A. Vesselovski para confirmar que “A idéia da economia de energia como lei e objetivo da criação é talvez verdadeira no caso particular da linguagem, ou seja, na língua cotidiana; estas mesmas idéias foram estendidas á língua poética, devido ao não reconhecimento da diferença que opõe as leis da língua quotidiana às da língua poética. …Por isso devemos tratar as leis da despesa e economia na língua poética dentro do seu próprio campo, e não por analogia com a língua prosaica.”

Chklovski continua “As leis de nosso discurso prosaico com frases inacabadas e palavras pronunciadas pela metade se explicam pelo processo de automatização” afirmando que este processo também acarreta inconsciência. Para contrapor, apresenta como deve ser o ato de percepção: “E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a direção da percepção. O ato de percepção da arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado…”

Agora mostra com o autor Leon Tolstoi nos textos exemplos (Que Vergonha, Kholstomer, Guerra e Paz, Ressureição, A Sonata a Kreutzer) e mecanismos de singularização: trata cada incidente como se acontecesse pela primeira vez, emprega na descrição do objeto outras palavras tomadas emprestadas da descrição das partes correspondentes em outros objetos, utiliza os objetos fora do contexto; substituição das palavras da linguagem corrente pelas palavras habituais de uso religioso. Especialmente neste último Chklovski afirma que muita gente considerava blasfêmia, e ofensivo causando o estranhamento. Daí os formalistas iniciaram uma nova forma de análise e de evidenciar os recursos para causar diferentes recepções: som, imagens, ritmo, sintaxe, métrica, rima, técnicas narrativas.

Para o crítico Chklovski é necessário também esclarecer os limites da utilização deste recurso: quase sempre que há imagem, há singularização. “…a imagem não é um predicado constante para sujeitos variáveis. O objetivo da imagem não é tornar mais próxima de nossa compreensão a significação que ela traz, mas criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento.”

E traz o objeto erótico à baila, que geralmente é apresentado como uma coisa jamais vista com os autores Gogol, D. Savodnikov, Rybnikov, Romanov, D.S. Zelenine, Boccaccio, Afanassiev e Hamsun. A sensação de paralelismo e não-coincidência de uma semelhança transfere para uma nova esfera a percepção habitual do objeto: de forma velada, afastando-o da compreensão; adivinhação como descrição, definindo o objeto por palavras que habitualmente não são associadas a ele; uso da singularização ao representar os órgãos sexuais.

Na última parte do texto ele fala estranhamento e um processo de desfamiliarização que ocorre na produção literária: a linguagem popular para a época usada por Pushkin (publicou de 1815 a 1877) e que para os contemporâneos era difícil e surpreendente. No início do século XX houve na Rússia a preferência de alguns autores darem preferência a produções dialetais e pelos barbarismos. Cada um chama atenção à sua maneira, no outro oposto em Guerra e Paz nos discursos em francês eram utilizadas palavras russas.  O autor conclui que apesar da tendência automatizante, “ Na arte há uma ordem; entretanto, ….e o ritmo estético consiste num ritmo prosaico violado; houve tentativas para sistematizar estas violaçãos.”

Não é à toa que o formalismo russo antecipa certos aspectos e influenciará de forma decisiva na Escola de Praga e no Estruturalismo. Com Saussure e as dicotomias sincroniaX diacronia, paroleX langue, sintagmaXparadigma e significanteXsignificado que foram a base para a construção do que é a Lingüística como a conhecemos no século XXI.

Chklovski vislumbra deslocamentos de significado temporais ou não, afastamentos ou aproximações do objeto e que mesmo para a singularização há limites determinados. O automatismo poderia ser assistir a um filme tipo blockbuster, e a singularização a um filme alternativo ou artístico… em outro momento o autor mesmo explicita esta tendência, como acontece na língua ou na produção artística poderá se inverter.  Nada mais atual do que falar de automatismo e inconsciência que o autor mostra: nas artes, na vida cotidiana e na política é cada vez mais necessária uma singularização: quem sabe despertando a consciência e sensibilidade através da arte e da linguagem.

 

REFERÊNCIAS

Viktor Chklovski, “A arte como procedimento” in Teoria da literatura: os formalistas russos, Porto Alegre, Globo, 1976. 39-56

Terry Eagleton, “O que é literatura?” in Teoria da literatura: uma introdução, São Paulo, Martins Fontes, 1983. cap.1

Consultado no dia 20 de julho de 2011  http://pt.wikipedia.org/wiki/Estranhamento

Consultado no dia 18 de julho de 2011  http://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Chklovski

%d blogueiros gostam disto: