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A língua como sistema de representação mental

Tarefa no grupo de estudos – Resumir os itens de 1 a 3 do primeiro capítulo do livro Teoria da Gramática: a Faculdade da Linguagem. Editora Caminho, do autor Eduardo Raposo. Na realidade apenas copiei os trechos mais importantes, com pequenas modificações e explicação de algumas nomenclaturas que não constam neste trecho.

1 – Introdução

Neste capítulo gostaria de caracterizar principalmente as questões de natureza epistemológica do programa da gramática generativa (gerativa no PB – português do Brasil).  Insistimos em particular na natureza “mentalista” da teoria, isto é, na concepção de que o seu objeto de estudo consiste em um sistema de regras e princípios radicados em última instância na mente humana.

A preocupação com o problema da aquisição da linguagem (em última instância com o seu aspecto biológico) tem estado no centro das preocupações de Chomsky e de outros generativistas, por exemplo, a célebre recensão crítica de Chomsky (1959) a Skinner (1957). É no entanto na TRL – Teoria da Regência e da Ligação ou GB – Government and Binding que se torna possível (talvez pela primeira vez) ancorar mais solidamente na teoria gramatical as investigações relativas à aquisição e desenvolvimento da linguagem na criança, através do modelo de “princípios e parâmetros”.

2 – A tensão entre a natureza e a convenção nos estudos da linguagem

Parece difícil escapar à conclusão que as propriedades essenciais da linguagem são diretamente determinadas por propriedades mentais dos seres que as falam, e que estudar a linguagem humana consiste em estudar determinadas propriedades da mente humana, radicadas em última instância na organização biológica da espécie.

A posição antimentalista tem usualmente uma fundamentação social: logo, a explicação última das propriedades da linguagem tem a ver com o seu funcionamento social; em última instãncia, é um produto convencional da cultura dos seres humanos vivendo em sociedade, e não um produto natural da sua organização mental. Esta dicotomia (1) sempre esteve presente na história da lingüística mas não será aprofundada neste livro.

A teoria da Gramática Generativa inscreve-se na corrente naturalista dos estudos sobre a linguagem, como algumas tradições históricas (escolásticos, Gramática de Port-Royal).

3- O programa de investigação da gramática generativa

Chomsky (1988) define o programa como o desenvolvimento das quatro questões (3):

(1) Qual é o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de uma determinada língua particular, por exemplo do Português? O que é que existe na mente deste falante que lhe permite falar/compreender expressões do Português e ter intuições de natureza fonológica, sintática e semântica sobre a sua língua?

(2) Como é que este sistema de conhecimentos se desenvolve na mente do falante? Que tipo de conhecimentos é necessário pressupor que a criança traz a priori para o processo de aquisição de uma língua particular para explicar o desenvolvimento dessa língua na sua mente?

(3) Como é que o sistema de conhecimentos adquirido é utilizado pelo falante em situaçãoes discursivas concretas?

(4) Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que sevem de base ao sistema de conhecimentos lingüísticos?

O empreeendimento generativista atribui um lugar central à segunda questão, tanto do ponto de vista filosófico/epistemológico como do ponto de vista ada teoria gramatical propriamente dita. Em particualar, o cuidado atribuído à interação entre a primeira e segunda questão é a pedra-de-torque da gramática generativa: nem todas as gramáticas que descrevem adequadamente os dados de uma língua particular são psicologicamente possíveis. É necessário, para além disso, que possam ter sido desenvolvidas pela criança com base no sistema de aquisição inicial.

Como o objetivo central é a apresentaçãoda teoria,  é a (1) e (2) que dedicamos mais espaço. Começamos portanto com algumas observações sobre a primeira, terceira e quarta, para depois nos ocuparmos mais longamente da segunda questão.

(1) Chomsky tem insistido várias vezes, nem a comunicação constitui o único uso que os seres humanos fazem da linguagem, nem é viável efetuar uma redução das complexas propriedades estruturais da linguagem a requisitos comunicativos.

(3) O termo “língua” no decorrer deste livro, e de um modo geral na literatura generativista, refere-se a um sistema de conhecimentos mental, e não ao conjunto de objetos abstratos ( frases ou expressões) determinado por este sistema. Então, é sinônimo de “gramática” (interiorizada) ou de “competência”. Chomsky (1986) utiliza nesta acepção o termo técnico “língua-I” (de língua interiorizada), opondo-se ao termo “língua-E” (de língua exteriorizada), que refere o conjunto de frases e expressões determinadas pela língua-I. O objeto de estudo da gramática generativa é a língua-I, não a língua-E.

Veja ainda uma resenha sobre este livro. Ou saiba mais sobre a carreira e prêmios deste pesquisador: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=21072&op=all

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Globalização, identidade e o local

Subtítulo: viajei na maionese na redação. Primeiro os textos que provocam, depois meu texto e a questão proposta em processo seletivo que participei. Eles demoraram a publicar a questão, que copiei abaixo, logo após a redação.

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Oswald de Andrade. Trecho do Manifesto Antropófago.

O questionamento sobre a identidade nacional parte do princípio de que o Brasil e os brasileiros teriam alguma peculiaridade em relação ao resto do mundo. O problema é justamente o contrário: não temos peculiaridade nenhuma. […]
A idéia ilusória de que somos uma nação particular, com características próprias, precisa ser combatida. No dia em que percebermos que somos um país amorfo, desinteressante, sem graça, talvez comecemos a buscar alternativas reais para nossa miséria social e cultural.” MAINARDI, Diogo. In: Veja, 29/08/01, p.151.

 

Disco O rei da vela

Já foi registrado que o nosso país é um dos que mais discutem a sua identidade; fato comprovado pelas inúmeras produções intelectuais e artísticas que tematizam o país. E na tendência globalizante os estudos internacionais cunharam a máxima que o “local é global”.

O substrato cultural brasileiro é formado por elementos diversos e conflitantes. Em vários momentos históricos houveram mudanças e este polimorfismo que nos caracteriza possui os movimentos de negação e de “volta às origens”.

A negação quer filtrar os elementos crioulos e sublimar, transformar e cunhar uma sociedade ideal ou cultura estrangeira imposta. por outro lado, indianistas, o genial Oswald de Andrade com o seu “Tupi or not tupi” mostram que a riqueza vem justamente da variedade. Precisamos reconhecer o passado de colônia, sim.

A globalização não poderá afetar a identidade cultural brasileira, pois ela já existe apesar das dificuldades de enquadrá-la. E talvez justamente pelas suas características tão múltiplas, esta marca brasileira exerce um fascínio nos estrangeiros que a conhecem. Finalmente, o que chamam de “alma” brasileira de parece cada vez mais com o que chamam globalização, pois é cada vez mais espelho do mundo apesar de regional.

 

PROPOSTA DE REDAÇÃO (continuação )
Uma das questões mais interessantes a respeito do Brasil é a preocupação extrema com sua identidade. Prova disso é a quantidade de teses, livros, filmes, personagens, enfim, produções intelectuais e artísticas que tematizam o país — enorme se comparada à de
outras sociedades. Para tentar compreender o problema, é preciso definir identidade como sendo um conjunto exclusivo de caracteres de uma nação.
Note-se que um ou outro aspecto pode ser semelhante ao de outra nação, mas o conjunto chamado identidade é exclusivo de cada cultura. Simultaneamente, a ausência de certas marcas contribui para caracterizar uma sociedade.

Quando se fala em Globalização, pensa-se, sobretudo, nos aspectos políticos e econômicos envolvidos no processo. No entanto, a face cultural do fenômeno, que raramente vem à tona, parece constituir fator fundamental para se compreender o panorama que está em vias de se formar. Diante desse quadro, responda:
Em que medida a identidade cultural brasileira é afetada pela globalização?

• Seu texto deverá ter até 30 linhas.
• A redação deve apresentar um título adequado e criativo.
• Os argumentos devem ser coerentes entre si, embora a abordagem possa ser intermediária.
• A modalidade escrita deve seguir a norma padrão do idioma.
• Sua dissertação deve, preferencialmente, seguir estruturas e estratégias valorizadas nos vestibulares, por isso evite redigir um artigo acadêmico típico do meio universitário.
• O texto será avaliado segundo cinco critérios: tema, tipo de texto, coerência, coesão e modalidade escrita.

A arte como procedimento – estranhamento, singularização, desfamiliarização

Knife grinder - "o afiador" de Malevich

“A arte como procedimento” – quase um fichamento e algum contexto histórico

Viktor Borisovich Chklovski fundou o OPOYAZ (Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética), um dos principais grupos do Círculo Lingüístico de Moscou que influenciou autores como Bertold Brecht, dentre outros estudiosos e cineastas de renome. Crítico literário, escritor e cenógrafo é considerado por muitos o pai do formalismo russo.

Segundo Eagleton, os formalistas surgiram na Rússia antes de 1917 e suas idéias floresceram durante as décadas de 1920 e 30 até serem silenciadas/censuradas pelo stalinismo.

O texto “O que é literatura?” afirma que o formalismo foi a aplicação da lingüística ao mundo da literatura “…. a literatura não era uma pseudo-religião, ou psicologia, ou sociologia, mas uma organização particular da linguagem. Tinha suas leis específicas suas estruturas e mecanismos, que deviam ser estudados em si, e não reduzidos a alguma outra coisa.”

Chklovski cunhou e discutiu em seus textos o conceito de ostranenie, que pode ser traduzido como estranhamento, singularização ou desfamiliarização. O título do artigo possui variação menor “A Arte como processo” ou “A Arte com procedimento”. O nome do autor também possui outras grafias como Shklovskii ou Shklovsky, devido às transliterações do cirílico para diferentes línguas.

No texto o autor inicia expondo o conceito “A arte é pensar por imagens” de Potebnia e os seus seguidores diziam que não existe arte e poesia sem imagem. Entre os discípulos, com destaque para Ovsianiki-Kulikovski que aprofundou estudos iniciais de Potebnia no que se refere à fábula e serviu de fundamento para tentar estender e aplicar o conceito à música, arquitetura e poesia lírica. Após 15 anos de trabalho infrutífero Ovsianiki-Kulikovski isolou “…a poesia lírica, a arquitetura e a música, e a ver aí uma forma singular de arte, arte sem imagens, e a defini-las como artes líricas que se dirigem imediatamente às emoções.”

Chklovski afirma que a fábula é mais simbólica que o poema, o provérbio mais simbólico que a fábula… e que o problema foi esta e outra definição “A arte é antes de tudo criadora de símbolos” resistiram e sobreviveram à derrocada da teoria sobre a qual estava fundada, mais intensamente na corrente simbolista e entre os seus teóricos. “…a poesia = a imagem, serviu de fundamento a toda teoria que afirma que a imagem = o símbolo = a faculdade de a imagem tornar-se um predicado constante para sujeitos diferentes. Esta conclusão seduziu os simbolistas… pela afinidade com as suas idéias, e se acha na base da teoria simbolista.”

A partir deste primeiro momento o texto “A arte como procedimento” se contrapõe aos primeiros argumentos apresentados e começa a desenvolver e apresentar conceitos que ajudarão a apresentar de maneira melhor a singularização:

– “…as imagens são quase que imóveis; de século em século, de país em país, de poeta em poeta, elas se transmitem sem serem mudadas.”

– “Todo o trabalho das escolas poéticas não é mais que a acumulação e revelação de novos procedimentos para dispor e elaborar o material verbal, e este consiste antes na disposição das imagens que na sua criação.”

– “… o pensamento por imagens não é o vínculo que une todas as disciplinas da arte, mesmo da arte literária; a mudança das imagens não constitui a essência do desenvolvimento poético.”

Ainda destaca que Potebnia não distinguia a língua da poesia da língua da prosa, que ele não percebeu que existem dois tipos de imagens: “a imagem como um meio prático de pensar, meio de agrupar os objetos e a imagem poética, meio de reforçar a impressão.” E se utiliza de autores como Spencer, R. Avenarius, A. Vesselovski para confirmar que “A idéia da economia de energia como lei e objetivo da criação é talvez verdadeira no caso particular da linguagem, ou seja, na língua cotidiana; estas mesmas idéias foram estendidas á língua poética, devido ao não reconhecimento da diferença que opõe as leis da língua quotidiana às da língua poética. …Por isso devemos tratar as leis da despesa e economia na língua poética dentro do seu próprio campo, e não por analogia com a língua prosaica.”

Chklovski continua “As leis de nosso discurso prosaico com frases inacabadas e palavras pronunciadas pela metade se explicam pelo processo de automatização” afirmando que este processo também acarreta inconsciência. Para contrapor, apresenta como deve ser o ato de percepção: “E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a direção da percepção. O ato de percepção da arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado…”

Agora mostra com o autor Leon Tolstoi nos textos exemplos (Que Vergonha, Kholstomer, Guerra e Paz, Ressureição, A Sonata a Kreutzer) e mecanismos de singularização: trata cada incidente como se acontecesse pela primeira vez, emprega na descrição do objeto outras palavras tomadas emprestadas da descrição das partes correspondentes em outros objetos, utiliza os objetos fora do contexto; substituição das palavras da linguagem corrente pelas palavras habituais de uso religioso. Especialmente neste último Chklovski afirma que muita gente considerava blasfêmia, e ofensivo causando o estranhamento. Daí os formalistas iniciaram uma nova forma de análise e de evidenciar os recursos para causar diferentes recepções: som, imagens, ritmo, sintaxe, métrica, rima, técnicas narrativas.

Para o crítico Chklovski é necessário também esclarecer os limites da utilização deste recurso: quase sempre que há imagem, há singularização. “…a imagem não é um predicado constante para sujeitos variáveis. O objetivo da imagem não é tornar mais próxima de nossa compreensão a significação que ela traz, mas criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento.”

E traz o objeto erótico à baila, que geralmente é apresentado como uma coisa jamais vista com os autores Gogol, D. Savodnikov, Rybnikov, Romanov, D.S. Zelenine, Boccaccio, Afanassiev e Hamsun. A sensação de paralelismo e não-coincidência de uma semelhança transfere para uma nova esfera a percepção habitual do objeto: de forma velada, afastando-o da compreensão; adivinhação como descrição, definindo o objeto por palavras que habitualmente não são associadas a ele; uso da singularização ao representar os órgãos sexuais.

Na última parte do texto ele fala estranhamento e um processo de desfamiliarização que ocorre na produção literária: a linguagem popular para a época usada por Pushkin (publicou de 1815 a 1877) e que para os contemporâneos era difícil e surpreendente. No início do século XX houve na Rússia a preferência de alguns autores darem preferência a produções dialetais e pelos barbarismos. Cada um chama atenção à sua maneira, no outro oposto em Guerra e Paz nos discursos em francês eram utilizadas palavras russas.  O autor conclui que apesar da tendência automatizante, “ Na arte há uma ordem; entretanto, ….e o ritmo estético consiste num ritmo prosaico violado; houve tentativas para sistematizar estas violaçãos.”

Não é à toa que o formalismo russo antecipa certos aspectos e influenciará de forma decisiva na Escola de Praga e no Estruturalismo. Com Saussure e as dicotomias sincroniaX diacronia, paroleX langue, sintagmaXparadigma e significanteXsignificado que foram a base para a construção do que é a Lingüística como a conhecemos no século XXI.

Chklovski vislumbra deslocamentos de significado temporais ou não, afastamentos ou aproximações do objeto e que mesmo para a singularização há limites determinados. O automatismo poderia ser assistir a um filme tipo blockbuster, e a singularização a um filme alternativo ou artístico… em outro momento o autor mesmo explicita esta tendência, como acontece na língua ou na produção artística poderá se inverter.  Nada mais atual do que falar de automatismo e inconsciência que o autor mostra: nas artes, na vida cotidiana e na política é cada vez mais necessária uma singularização: quem sabe despertando a consciência e sensibilidade através da arte e da linguagem.

 

REFERÊNCIAS

Viktor Chklovski, “A arte como procedimento” in Teoria da literatura: os formalistas russos, Porto Alegre, Globo, 1976. 39-56

Terry Eagleton, “O que é literatura?” in Teoria da literatura: uma introdução, São Paulo, Martins Fontes, 1983. cap.1

Consultado no dia 20 de julho de 2011  http://pt.wikipedia.org/wiki/Estranhamento

Consultado no dia 18 de julho de 2011  http://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Chklovski

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