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Inauguração da Livraria Cultura – Cine Vitória

A partir desta segunda dia 17 de dezembro será aberta para o público a Livraria Cultura da Cinelândia, a partir das 12h, e finaliza a primeira etapa do retrofit no antigo Cine Vitória. (atualizado após a inauguração)

entrada

O cinema do Edifício Rivoli, estilo art deco foi construído em 1939 no centro do Rio de Janeiro e é tombado como patrimônio histórico cultural do município. A reforma preservou o piso preto e branco, além do belo painel, o balcão e parte da arquitetura original: fachada e os revestimentos de mármore e granito passaram por restauração com quase 3.200 m². Tudo começou no ano passado, quando o BNDES aprovou financiamento para as livrarias de Manaus, Recife, Curitiba e Rio de Janeiro (duas unidades);  incluiu também no projeto modernização de sete filiais.

O arquiteto Fernando Brandão nos apresenta uma loja conceito que de imediato remete às espirais do conhecimento utilizados na gestão ou da aprendizagem – outros exemplos de arquitetura similar: a rampa dos museus do Vaticano (foto) ou Guggenheim. O plano inclinado da busca de conhecimento, e de sabedoria nunca se tornará sinônimo de ladeira, difícil. Assim como no livro Rayuela de Julio Cortazar nos deliciamos ao percorrer as várias possibilidades de leituras hiper (textuais) nas estantes enquanto o caminho é feito para cima – na espiral o caminho é parecido, mas a evolução praticamente inevitável. E que neste prazeroso labirinto o caminho para a saída proporcione não apenas conhecimento, mas sabedoria…

rampa no Museu do Vaticano

rampa no Museu do Vaticano

Uma das arquitetas da Livraria Cultura, Daniela Moniz informou que para preservar a estrutura alterou-se o projeto original que está diferente do padrão das outras filiais, mas a equipe ficou muito satisfeita com os resultados: a bilheteria do antigo cinema será utilizada para os eventos no teatro, e a parede onde estava a tela também foi preservada por isso o projeto vazado para dar visibilidade.

O nome do teatro é homenagem à fundadora da livraria, com 180 lugares no subsolo e abrirá as portas no início de 2013. Hoje Maitê Proença e Clarice Niskier leram “A beira do abismo me cresceram asas” com o auditório lotado. A alemã refugiada do nazismo que para melhorar o orçamento começou alugando livros e em 1969 inaugurou a loja agora tem seis teatros chamados Eva Herz – acompanhe a programação. Tive uma rápida conversa com seu filho Pedro Herz – presidente do conselho de administração da firma e descobri que ele fala alemão, talvez o motivo da empresa ter sempre disponível um dos mais completos catálogos com títulos nesta língua.

Aconteceram shows do grupo de gafieira do dançarino Alexandre Silva, chorinho com Movimento Artístico da Praia Vermelha. Lançamentos itinerantes da Editora Retina 78 que já passou por São Paulo, quiosque da rede globo e ainda irá para Florianópolis e Belo Horizonte: Suburbia e Luiz Gonzaga – O menino cantador . A blogueira Babi Dewet teve fila com vários teens pedindo autógrafo para no seu exemplar de “Sábado à Noite“. A livraria estava cheia, e sobressaiu para os presentes a citação de vários autores escritos com giz na lateral das estantes, como Tolkien e Michael Ende.

Conheci o trabalho de Pedro Dória quando ele escrevia para o blog No Mínimo. Tive o oportunidade de inquirir sobre o motivo de um jornalista que se mostra muitas vezes à frente do seu tempo e que aparentemente gosta de tecnologia, escolher um tema de passado tão distante “1564 – Enquanto o Brasil Nascia”. Ele afirmou que como profissional era seu dever esquadrinhar e descrever a informação, não importando a temporalidade o fato está lá para ser investigado. Perguntei também sobre a escolha de falar sobre a família Sá. Dória respondeu que escrevia sobre a formação da cultura e da região Sudeste,  suas influências neste determinado espaço de tempo – a família Sá foi personagem de destaque e participou deste período ativamente.

Nem tudo é apenas tradição neste espaço renovado: a rampa/estante conecta pavimentos e várias seções: dentro do conceito store in store, o chamado espaço Geek , destinado aos fãs e nerds (ou não) que gostam de ficção científica, jogos, itens colecionáveis: livros, HQs, RPG… (capacho do batman, cards de magic, pôsters, uma edição de Sandman anotada e armário inspirado no TBBT chamaram atenção); totens para experimentação de games em uma arquitetura pensada para se jogar – Playstation, Wii e Xbox 360.

O espaço para e-books é dedicado ao melhor e-reader eleito pela conceituada revista Wired! – Kobo, lançado este mês com a marca da Livraria Cultura. Neste espaço os clientes poderão degustar e comprar na hora o primeiro modelo lançado no Brasil que já possui mais de 10 mil ebooks grátis disponíveis no formato.

No segundo pavimento temos um espaço para exposições, com curadoria de José Carlos Honório e do outro lado no mesmo nível divisamos os guias de viagem e moleskines (Livraria Cultura é a primeira loja em toda América Latina a ter um espaço exclusivo para os produtos Moleskine® ). Assim como a loja de São Paulo do Conjunto Nacional terá um café com varanda e um espaço gourmet que terá curso ministrado por convidados. Seguindo a rampa em espiral vazada para o grande vão central entre os mais de 50 mil títulos à venda, ainda encontramos Bluray, CDs, DVDs e discos com o diferencial de acervo (design, arquitetura, fotografia) e atendimento que conheço dos três anos que morei em Pernambuco e freqüentava a Cultura no Recife Antigo – na época a maior do país.

A revitalização do centro do Rio ganhou pontos, e o preeenchimento do vazio que faz agora uma ligação merecida entre a Lapa e a Cinelândia. Finalmente transformar o ambiente em um centro cultural com alternativas gratuitas (pocket show, entretenimento infantil, lançamentos, palestras, etc) se interligando com a variada programação de eventos à sua volta me proporciona a sensação de este não será apenas mais um local, mas um ponto de encontro de quem já freqüenta o Teatro Municipal, Teatro Rival, Amarelinho, Centro Cultural da Justiça Federal, Lapa, Goethe Institut, escola de Música da UFRJ: a convergência e mistura no sentido ótimo do moderno e clássico e que chamamos Cultura, juntando diversas tribos. Encontrei como previsto alguns conhecidos que gostam de ler saindo do trabalho, e músicos antes da sua apresentação na Lapa passaram por lá.

Disse e repito:  descobri que além de livro novo, gosto de cheiro de @LivCultura nova \o/

Agradecemos o convite da Máquina Public Relations, que estendemos aos leitores do blog

 

MAIS

Mercado – livraria cultura é cada vez mais carioca http://www.publishnews.com.br/telas/noticias/detalhes.aspx?id=71547

Visual antes da restauração

 Liberação do financiamento pelo BNDES

Histórico do Cine Vitória http://www.riocomela.com.br/index.php/2012/12/14/cine-vitoria-e-livraria-cultura/

Revitalização e a importância da cultura

Conheça mais a Livraria Cultura

Tradução de literatura brasileira na Alemanha e tradução de clássicos alemães no Brasil

estudantes de alemão em 2010

Em 1999 antes que o livro eletrônico/ e-book virasse usual publiquei um artigo, aqui resumido e que não foi levado adiante por falta de interlocutores acadêmicos que se interessassem por isto na época:
Brazilian Literature Report of Use and Making a German Literature Data Base
Universidade Federal de Santa Catarina, Brazil
German literature in an electronic medium aims at creating a bilingual literary data bank with texts on the humanities, with special reference to German literature. The data bank will be of use to discuss and disseminate German literature in Brazil, as well as hypertext questions, translation theory and history of literature/translation.
http://tracearchive.ntu.ac.uk/incubation/level2/speakers/abstracts.htm

Depois de um certo tempo, vi algumas iniciativas que coincidem com o objetivo do projeto na época e que estão em execução hoje:

Mapeamento da literatura brasileira no exterior – http://conexoesitaucultural.org.br/sobre/

Se interessa em publicar o seu livro de contos ou romance em alemão? Olhe as dicas, e fique de olho
Agência que trabalha com autores brasileiros http://www.mertin-litag.de/
Tradutor, jornalista http://www.michael-kegler.de/
Tradutora https://www.facebook.com/maria.hummitzsch
Tradutora: http://www.linkedin.com/pub/kristina-michahelles/32/44/363

Editoras http://www.weltbild.de/ (esta é popular/bolso e já publica os livros online também)

Editoras que já participaram de edital para traduções da Biblioteca Nacional:
http://www.schoeffling.de/
http://www.suhrkamp.de/
http://www.a1-verlag.de/
http://www.assoziation-a.de/
http://www.callis.com.br/

Já publicou autores brasileiros em alemão:
http://www.randomhouse.de/catalog/catalog.jsp?lbl=37000&nov=false

Entrevista na íntegra feita por Raquel Cozern e publicada na Folha de São Paulo. Marifé Boix García, espanhola que trabalha desde 1994 na feira e hoje vice-presidente, também comentou – “Mantenho aqui as aspas dela, que não saíram na edição.”

Juergen Boos organizará a Feira do Livro de Frankfurt em 2013, a maior feira mundial do mercado editorial terá o Brasil como convidado de honra, e cabe à FBN elencar que escritores nos representarão no megaevento. “Best-sellers são perigosos”: íntegra da entrevista com Juergen Boos, presidente da Feira de Frankfurt

http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/08/12/best-sellers-sao-perigosos/

Crônica do julgamento de Galileu – Poder & Ciência

Gostei muito destes trechos, e li parte deles no Clube da Leitura.  Como o livro está esgotado e a leitura rendeu bons papos tomei a liberdade de reproduzir trechos aqui. O livro é de autoria de Péricles Prade:

capa do livro de pericles prade

Capítulo I – O anunciador de céus novos

Antes de Galileu existiam óculos havia quatro séculos, Mas ninguém em quatrocentos anos tivera a curiosidade, a idéia de ver o que aconteceria se, em vez de se servir de um par de óculos, fossem empregados dois pares ao mesmo tempo.

A verdade é que o fabricante de óculos não era um óptico, mas um artesão. Ele não fabricava instrumentos ópticos; construía umas engenhocas. Por isso o nascimento da óptica científica não constitui o desenvolvimento de uma tradição artesanal, mas antes, a ruptura de tal tradição que, fechada em si mesma, não levava a parte alguma.

Talvez haja uma verdade profunda na narração, aparentemente lendária, que atribui a invenção do primeiro óculo de alcance ao acaso, à brincadeira do filho de um fabricante holandês daquele instrumento.

A inovação técnica, portanto, foi realizada por alguém que a tal não se propôs. Daí que a questão da prioridade na fabricação de telescópios, muitas vezes discutida, não se reveste de grande importância.  ……

Além do mais, a invenção (do latim invenire, achar) de Galileu foi a de “achar” a intuição, a liberdade, a coragem, a curiosidade, a louca temeridade de apontá-lo para o céu, considerado desde milênios como a morada do Deus judeu-cristão Iahweh, da sua Corte de anjos e de profetas e santos do Antigo e do Novo Testamento, para nele explorar o espaço-tempo da imensidade eterna, o jogo desconhecido das luzes e sombras entre estrelas e planetas, o ritmo-harmonia do movimento das esferas, a cara dos impassíveis, inalteráveis corpos celestes, com infinita paciência, visando a descobrir-lhe talves o mecanismo secreto.

A primeira revelação do pequeno telescópio foi a existência de quatro satélites de Júpiter.

À notícia da descoberta galileiana, seus colegas de universidade responderam de imediato, denunciando-lhe os métodos como absurdos e seus resultados como ímpios. Antes de mais nada, devia tratar-se, naturalmente, de um erro de óptica.

De fato, a respeito de tais satélites nada dissera Aristóteles. Ora, impossível Aristóteles ter errado. Logo, não existiam satélites de Júpiter. Do mesmo modo, também a Bíblia os ignorava.

Na realidade, supunham os corpos celestes não podiam ser senão 7 (o sol, a lua, e os cinco planetas até então conhecidos: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno), porque 7 é um número sagrado.  …

Para a maioria as descobertas não passavam, diziam, de ilusão óptica, de defeitos do instrumento ou até de diabólico engano.

Ninguém, penso, acreditavaa que Galileu e seus amigos mentissem. O problema estava na interpretação. Não faltava, também, quem, por mais que quisesse, não “podia” acreditar no óculo. A esse respeito era contada uma anedota, por assim dizer típica e referente ao peripatético Cremonini, um colega de Galileu na Universidade de Pádua, que se recusou a olhar através do óculo.

Cremonini naquele momento era a glória de Pádua e o seu ordenado era o dobro do de Galileu. …..

Tal como todos os aparelhos que se interpõe entre o olho e o seu objeto, o óculo astronômico, em vez de melhorar a observação, deforma antes e falseia a visão. Assim, negando-se a ver o que o outro via, Cremonini não queria sair do próprio universo, pois desconfiava do universo “ilusório” de Galileu.

O próprio Kepler, …no princípio mostrou-se cético, e, mesmo depois de recebido o óculo, construído por Galileu, por intermédio do eleitor de Colônia, precisou de mais de duas semanas de provas e contraprovas para chegar a concluir que aquele sábio tinha razão.

Era o fim de Agosto de 1610. Decorrera um ano desde as primeiras observações e descobertas galileianas.

Kepler, de repente, transformou-se em neófito da nova fé e em poucas semanas redigiu o Relatório de observação sobre os quatro satélites de Júpiter, um notável livrinho que lançava as bases teoréticas do telescópio. Usando, pela primeira vez, o termo satélite. Ao amigo italiano, pioneiro solitário, Kepler repete com alegria as últimas palavras do imperador Juliano, derrotado por uma força sobre-humana: Vicisti, Galilaee!

No mês de julho de 2012 foi aberta uma exposição pública dos arquivos secretos do Vaticano. A Globo News fez um especial, e compara Giordano Bruno (que não renegou seus conhecimentos) a Galileu.

Canção do Exílio – contextos (parte 2)

Outras ligações da Alemanha e da língua alemã com Gonçalves Dias e contextos históricos

Podemos começar a entender a ligação da epígrafe de um famoso autor alemão em obra indigenista/romântica brasileira. A Canção de Exílio abre a publicação de Gonçalves Dias, e tem como epígrafe fragmento do Lied de Mignon (também traduzido como Balada ou Canção), retirado do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, aqui traduzido por Manuel Bandeira (1952):

 

“Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,

Conheceis o país onde florescem as laranjeiras?

Im dunkeln Laud die Gold-Orangem glühn,

Ardem na escura fronde os frutos de ouro,

Kennst du es wohl?

Conhecê-lo?

–         Dahin, dahin!

– Para lá, para lá

Möch ich… ziehn.

quisera eu ir!” Johann Wolfgang von Goethe

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

A ligação de Gonçalves Dias com a cultura alemã não era apenas ocasional, ou apenas com um de seus maiores autores: alcançava o interesse pela língua – inclusive com traduções de Schiller -, conforme verificamos em análise literária:

“Um primeiro contato com o texto de Gonçalves Dias e, logo, salta aos olhos a justeza encontrada pelo poeta maranhense na escolha da epígrafe que, retirada do romance de formação, Os Anos de Aprendizagem de Wilhem Meister, de Goethe, acomoda-se perfeitamente ao espírito da Canção do exílio. Ao escolher o fragmento da Balada de Mignon […] Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo que também vai percorrer a sua Canção, isto é, o desejo de voltar à Pátria. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo, já quase no final do livro, observa-se a moça agonizando e o seu médico, vendo-se a sós com Wilhem, afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “A natureza estranha dessa boa criança, de quem falamos agora, consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria, e o desejo pelo senhor, meu amigo, são, poderia mesmo dizer, os únicos elementos terrenos nela; ambos se tocam numa distância infinita; ambos são inacessíveis para essa alma singular”.

Se, por um lado, o drama da moça é marcado pela impossibilidade de realização de seu duplo desejo; por outro, o simples fato de o autor brasileiro ter recorrido ao referencial alemão exemplifica o diálogo constante que este, sempre ligado aos grandes temas, trava com a literatura européia.7 É possível perceber ainda que tanto no trecho do poema quanto no fragmento acima, o desejo de voltar é perpassado por uma forte nostalgia que, por sua vez, emblematiza a figura do expatriado. Portanto, a epígrafe da Canção do Exílio, apesar de Augusto Mayer questionar a liberdade com que Gonçalves Dias mutilou o poema original,8 apresenta, de antemão, dois dos motivos românticos que, juntamente com a metáfora da natureza, predominam no poema gonçalvino, ou seja, a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal.”

7 Gonçalves Dias nutria, por exemplo, uma profunda admiração pela literatura alemã, tanto que, durante o ano letivo de 1843/1844, o poeta começou a estudar alemão para poder ler diretamente os poetas dessa língua. Em carta a Teófilo Leal, datada de 27 de agosto de 1843, ele escreve: “Se eu contasse um pouco mais comigo – por outra se eu soubesse grego e alemão – partia já para o Rio. Assim continuarei a escrever o meu poema – o meu romance e as minhas poesias soltas – estudarei alemão – e creio que um ano não será mal empregado”. Cf. PEREIRA, L. M. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1943. p. 50.

8 Cf. MAYER, A. Sobre uma epígrafe. In: ___. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964. p. 95-99.  (MARQUES, p. 81-82)

O título do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre também é traduzido como “Os Anos de Aprendizagem” ou “Os Anos de Aprendizado”de Wilhelm Meister, e inaugurou o gênero que se chama Bildungsroman, traduzido como “Romance de Formação” –  o personagem é “exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.” (WIKIPEDIA).  Assim como apontamos anteriormente diferenças entre o romantismo europeu e o brasileiro, a seguir apresenta-se a “busca da essência da nacionalidade”

“Na Europa o problema se definiu primeiro na Alemanha e estava ligado ao longo processo de enfraquecimento da cultura alemã pela sedução que a civilização francesa vinha exercendo, desde o século XVII, sobre a aristocracia dominante nas inúmeras unidades políticas em que se dividia o país. De um modo geral, os românticos europeus, em sua aspiração de reencontrar o caráter da nação “em sua pureza original”, voltaram-se para suas origens históricas (acarretando o amplo movimento de revalorização da Idade Média) ou para o povo, transformado em quase uma entidade mítica, porque nele, muito menos contaminado do que as classes eruditas pelos valores “impuros” (alienígenas), estaria preservada a alma nacional (daí as inúmeras complilações de cancioneiros populares, bem como o surgimento do estudo científico do folclore, que se inicia justamente na Alemanha).” (ALMEIDA, p.43)

 

Goethe na Italy by Johann Heinrich Wilhelm Tischbien (1787)

Outros dados importantes a serem destacados sobre “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”: o personagem se associa à uma “sociedade secreta”, e muitos dizem que seria uma referência à Maçonaria – muito em voga na época (Goethe foi associado a um ramo chamado Illuminati); e que o livro foi publicado logo após o estrondoso sucesso dos “Sofrimentos do Jovem Werther”, que causou uma onda assustadora de suicídios na Europa.

Sobre o poema afirma CANDIDO (2009) que “A celebração da natureza, por exemplo, seja como realidade presente, seja evocada apela saudade, em peças que ficaram entre as mais queridas, como CANÇÃO do EXÍLIO…” É de VALLE (2009) uma observação que contrapõe a vida real do poeta à imagem do poeta romântico com ares de trovador:

“É durante os sete anos que esteve pela primeira vez em Portugal, que escreve alguns poemas de seu primeiro livro, aí sentindo as saudades do sabiá e das palmeiras com a “Canção do Exílio”. Note-se que, de certa forma, para um jovem do interior uma vida de estudante em Coimbra, desfrutando do que culturalmente desejava, rodeado de bons amigos, e ainda tendo algumas namoradas, é curiosa a nostalgia por sua terra natal, onde nada disto desfrutava… Diga-se de passagem que Gonçalves Dias era pardo (o que não era bem visto) e de somente um metro e meio de altura, o que, para um homem não é considerado atraente. Porém, seja pelo que for, cativava as mulheres. Pela vida toda, teve muitas namoradas, às vezes mais de uma ao mesmo tempo, e muitas deixaram por escrito seu encanto pelo poeta! Certa vez quase morre por ter sido flagrado com uma mulher comprometida, coisa que comprova sua agitada vida amorosa… De que tanto se queixava o romântico?”

Canção do Exílio     Gonçalves Dias  – 1846

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá

Nosso céu tem mais estrelas

O eu-lírico de “Canção” possui diferentes instrumentos que prestigiam temas diversos: Deus, o amor e a pátria. A ambientação criada pela escolha dos instrumentos (“harpa religiosa”, “lira”, “alaúde”) e seus acessórios (“festões”, “engrinaldada”) determinam a relação do poema com o medievalismo. Ao mencionar que seu alaúde pertencera a antigos cantores de trovas de amores, o poeta incorpora, através do instrumento herdado, a tradição dos trovadores medievais. Dessa forma, há uma justificação para o medievalismo gonçalvino, ele é uma herança dos antigos bardos. (CHIARI, 2011)

Da mesma maneira que teve reconhecimento, Gonçalves Dias teve ferrenhos críticos, aqui reproduzo um que discute se a literatura é brasileira ou não, e outro, escritor da época, que talvez coloque na opinião do personagem a discussão que acontecia sobre os escritores românticos:

“sem língua à parte não há literatura à parte…e essa polêmica secundária que alguns poetas, e mais modernamente o Sr. Gonçalves Dias parecem ter indigitado: saber, que a nossa literatura deve ser aquilo que ele intitulou nas suas coleções poéticas – poesias americanas.  […]

Com pouca exceção, todos nossos patrícios que se haviam erguido poetas, tinham-se ido inspirar em terra portuguesa, na leitura dos velhos livros, e nas grandezas da mãe pátria…Não há nada nesses homens que ressumbre brasileirismo; nem sequer um brado de homem livre da colônia – nada.” (RONCARI, p. 309)

“Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas das florestas, nas torrentes das serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite, como se acordassem procurando túmulos, e perguntando como Hamleto no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração: que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos, que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores – que tudo isto é sublime nos livros mas é soberanamente desagradável na realidade” (AZEVEDO apud CANDIDO, p.333)

Esperamos ter costurado através dos panoramas apresentados, os enquadramentos necessários para um melhor entendimento do contexto de produção. Inclusive, em novembro de 2011 completaram 147 anos da morte do autor. Assim, poder-se-ia através de análises esquematicamente aprofundadas levar-se adiante os estudos desta época de formação da Literatura Brasileira nos preparando para a comemoração dos 150 anos.

BIBLIOGRAFIA

ALENCAR, José de. Bênção Paterna (prefácio do autor). Obras completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.

ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

BANDEIRA, Manuel.Gonçalves Dias: esboço biográfico. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1952.

CANDIDO, Antonio. O Nacionalismo Literário. Formação da literatura brasileira – momentos decisivos. São Paulo, Rio de Janeiro: FAPESP, Ouro sobre Azul, 2009.

CHIARI, Giseli Gemmi. Presença do Medievalismo em Gonçalves Dias. In Fólio – Revista de Letras, vol. 3 no 1. Vitória da Conquista: UESB, 2011.

Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/folio/article/viewFile/554/613

DENIS, Ferdinand. Resumo da História Literária do Brasil. In GUILHERMINO CÉSAR (seleção e apresentação. Historiadores e críticos do romantismo. Rio de Janeiro, São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, Editora da Universidade de São Paulo, 1978.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Indianismo Revisitado. Gatos de outro saco. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LIMA, Luiz Costa. Natureza e História nos Trópicos. In O Controle do Imaginário – Razão e Civilização no Ocidente. São Paulo: Brasilense, 1984.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de. Discurso sobre a História da Literatura do Brasil. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do Pensamento Crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

MARQUES, W. J. O poema e a metáfora. In Revista Letras, n. 60, p. 79-93, jul./dez. Curitiba: Editora UFPR, 2003. Disponível em: <http://www.ufscar.br/~neo/Estudos/arquivos/opoemaeametafora.pdf&gt;

RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: EDUSP, 2002.

SALLES, Ricardo. O Papo Amarelo do Tucano: A Cultura Imperial. In Nostalgia Imperial: A formação da Identidade Nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbpooks, 1996.

VALLE, Gerson. Gonçalves Dias e o Romantismo. Palestra na Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, Petrópolis em 18/06/2009. Disponível em: <http://www.rauldeleoni.org/academicos_titulares/gerson.html&gt;

WIKIPEDIA. Bildungsroman. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bildungsroman

 

REFERÊNCIAS

 ABL. Biografia de Gonçalves Dias. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=866&sid=183 e

CYNTRÃO, Sylvia Helena. A ideologia nas canções de exílio: Ufanismo e Crítica. Brasília, 1988. Dissertação apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Disponível em:

http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/3969/1/1988_SylviaHelenaCynt%C3%A3o.pdf

WIKIPEDIA. Johann Wolfgang von Goethe. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe

VOLOBUEF, Karin. Friedrich Schiller e Gonçalves Dias. Pandaemonium germanicum 9/2005, 77-90. São Paulo: USP, 2005. Disponível em:

http://www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum/site/images/pdf/ed2005/Friedrich_Schiller_e_Gonalves_Dias.pdf

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