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Resumos de capítulo – Lingüística Histórica

LIvro de Carlos Alberto Faraco

LIvro de Carlos Alberto Faraco

Trabalho para a disciplina Lingüística IV

2)      Indique os principais pontos do capítulo 4 de Faraco (2005: 91-127), em redação não esquemática.

No capítulo chamado “A lingüística histórica é uma disciplina científica”, fala-se das ocupações do pesquisador de lingüística histórica: transformação das línguas em determinados tempos, e as teorias, métodos e ferramentas utilizadas nas análises.

Faraco inicia destacando a importância da observação mediada por determinados pressupostos teóricos, mesmo que caracterizada pela diversidade e embates entre pontos de vista diversos.

O autor descreve que antes de Saussure, estudos “nos século XVII e XVIII abordavam a língua como uma realidade estável, atemporal e organizada segundo princípios da lógica” p.95 – universais e não históricos; já no século XIX a língua era vista como necessariamente histórica. O autor genebrino estabelece duas dimensões: uma histórica (diacrônica) e outra estática (sincrônica). Faraco afirma ainda que Saussure defendia a autonomia entre ambos, não negando a interdependência – apesar de ter sido estabelecida uma rigorosa distinção metodológica..

Faraco apresenta uma análise clássica do lingüista Mattoso sobre a divisão morfológica sincrônica do verbo “comer”, ou “estrela”: seria absurdo propor uma divisão em mantendo a estrutura morfológica do verbo em latim para análise sincrônica, do estágio atual da língua, por exemplo.

O autor fala da precedência da sincronia, e critica alguns lingüistas por ignorarem a questão histórica, o que revela uma “espécie de retorno às concepções universalizantes e logicizantes dos séculos XVII e XVIII” (p. 100). Apresenta crítico Coseriu que propõe que se veja a língua em moviemento (Saussure tem uma visão estática) e os lingüistas Weinenrich, Labov e Herzog que defendem a construção de um modelo de língua capaz de acomodar sistematicamente a heterogeneidade sincrônica.

Faraco distingue duas concepções de linguagem: a que considera a língua um objeto autônomo; outra como um objeto intrinsecamente ligado à realidade histórica, cultural e social da comunidade falante. Também cita os métodos diferenciados e as visões que direcionarão uma orientação teórica da mudança lingüística. Fala ao pesquisador iniciante da importância de selecionar a sua orientação teórica, e para quem quer optar pelo ecletismo que para Faraco é um “amontoado acrítico, e por isso ingênuo de teorias”.

A seguir, são apresentadas a Teoria Variacionista e a Teoria Gerativista. Ele apresenta as características de cada uma delas e também relata uma tentativa de aproximação entre ambas, a chamada ‘Sociolinguística Paramétrica’, sendo que um dos primeiros a implementá-la foi Fernando Tarallo.

Discute e explica conceitos explicação, e seu significado peculiar nesta área: “interpretar as mudanças e explicitar arrolar fatores contigenciais”p. 117

Faraco ainda apresenta as três diferentes vias para o estudo histórico das línguas: “voltar ao passado e nele se concentrar, voltar ao passado para iluminar o presente, estudar o presente para iluminar o passado” (p. 118).

Respectivamente os neogramáticos para o primeiro, e a análise variacionista para o último, e apresenta exemplos do método comparativo: português trecentista, o trabalho de classificação das línguas indígenas e estudo dos seus dialetos, além de outras contribuições filológicas.

Na terceira via “estudar o presente para iluminar o passado” está o princípio da uniformidade, isto é, “as comunidades humanas, embora diferentes em cada situação conjuntural, partilham no presente e passado de certas propriedades recorrentes” p. 123. O autor ressalva ainda que as três vias não se anulam. Sobre a qualidade de alguns dados cita-se Labov: “A lingüística histórica pode, então, ser pensada como a arte de fazer o melhor uso de dados ruins”.

Ao finalizar o capítulo, fala sobre o método comparativo e resultados positivos confirmados empiricamente por registros dialetológicos posteriores “pressupõe uma certa quantidade de dados, e principalmente, a localização de relações sistemáticas entre eles” p. 126. E a seguir um quadro comparativo que mostra a diferenciação no consonantismo das línguas germânicas: inglês, latim, alemão.

3)      Faça um breve resumo do capítulo 5 de Faraco (2005: 128-174).

Na introdução do capítulo chamado “História da nossa disciplina”, Carlos Alberto Faraco afirma que delineará um panorama que não será apenas um relato da história, mas a interpretação mediada dos acontecimentos da disciplina lingüística histórica: momentos, autores e obras importantes. Costuma-se dividir a lingüística histórica em dois grandes períodos: o primeiro, de 1786 a 1878 (período da formação e consolidação do método comparativo), e o segundo, que vem de 1878 (ano da publicação do manifesto dos neogramáticos) até os dias atuais do século XXI.

E no segundo período sinaliza que haverá contínua tensão: idas, vindas, retomadas, (re)negociações e (re)avaliações entre duas linhas predominantes: “uma mais imanentista, que – continuadora, de certa forma, do pensamento neogramático e caudatária do estruturalismo e, depois, do gerativismo – vê a mudança como um fato primordialmente interno, isto é, como um acontecimento que se dá no interior da língua e condicionado por fatores da própria língua. A outra, mais integrativa, que – enraizada nos primeiros críticos dos neogramáticos e fundada nos estudos de dialetologia e, depois, de sociolingüística – entende que a mudança deve ser vista como articulada com o contexto social em que se inserem os falantes, isto é, como um evento condicionado por uma conjunção de fatores internos (estruturais) e externos (sociais)”.  p. 129

O autor também alerta para o fato da lingüística ter nascido nas preocupações e percepções filológicas de várias sociedades e enumera alguns antecedentes: hindus já no século IV a.C.; gregos, alexandrinos, romanos, árabes; pela gramática de Port-Royal, no século XVII, dentre outros.

Nos primeiros momentos descreve o interesse dos intelectuais europeus no estudo de línguas de civilizações antigas; as primeiras observações das semelhanças e comparações entre sânscrito, latim e grego; fundação da Escola de Estudos Orientais em Paris (onde estudaram os intelectuais Friedrich Schlegel e Franz Bopp, que desenvolveriam a gramática comparativa). Nesta primeira fase observa-se que grande parte dos pesquisadores apresentados pelo autor eram alemães.

Schlegel e Bopp reforçam a tese do pioneiro W. Jones, e ampliam pesquisas sobre o parentesco do sânscrito com o latim, grego, germânico, lituano, eslavo, armênio, celta, albanês, gótico, alemão e o persa no léxico e estruturas gramaticais, morfologia, correspondências sistemáticas. O autor cita ainda os estudos comparativos do lingüista Rasmus Rask que paralelamente e independentemente desenvolveu trabalhos comparativos relevantes com línguas nórdicas e metodologicamente exemplares, mas por ter sido publicado em dinamarquês teve pouca repercussão nos meios científicos.

A seguir cita Jacob Grimm – costuma-se dizer que o estudo propriamente histórico foi estabelecido pela publicação do livro Deutsche Grammatik – que identificou a existência de correspondências fonéticas sistemáticas entre o indo-europeu e línguas do ramo germânico com no passar do tempo. “Aliou-se, desse modo, o empreendimento comparativo ao histórico, donde vem a denominação que se costuma dar à lingüística do século XIX: gramática ou lingüística histórico-comparativa.” p.135

As chamadas “Leis de Grimm” apresentavam porém, várias exceções que incomodaram os germanistas por algum tempo ainda. Faraco comenta o trabalho do iniciador Fridrich Diez  na Filologia Românica, e sua importância no refinamento metodológico dos estudos históricos; e apresenta Schleicher que além de sugerir uma tipologia (Stammbautheorie) das línguas a partir da sua formação (botânico) e cunhar o termo Ursprasche (“língua remota”), hoje denominado proto-indo-europeu, foi o primeiro a realizar estudo de uma língua indo-européia a partir da fala.

A partir da publicação do manifesto neogramático – lingüistas relacionados com a Universidade de Leipzig – o escritor Faraco os compara a um divisor de águas na lingüística histórica ao criticar os antecessores e estabelecer orientação metodológica diferente e mais rigorosa; e um conjunto de postulados teóricos para interpretação das mudanças lingüísticas.

Os neogramáticos eram defensores de que as mudanças sonoras se davam num processo de regularidade absoluta e não admitiam exceções, o que o dinamarquês Karl Verner embasou quando demonstrou que nas exceções do enunciado de Grimm havia mudanças regulares, e que ocorriam de acordo com o contexto lingüístico. Apesar desta guinada metodológica rigorosa, os neogramáticos se utilizavam de analogia, que, para eles, estava no plano gramatical, e não fonético.

Um grande neogramático foi Hermann Paul, que foi referência na formação de muitos diacronistas vindouros, e apresentou uma tese bastante aceita até os dias de hoje: que a mudança lingüística é originada principalmente no processo de aquisição da língua. Faraco também apresenta o trabalho etimológico de Lübke e um dos mais importantes críticos ao movimento neogramatico: Hugo Schuchardt – um dos primeiros estudiosos a dar atenção sistemática aos pidgins e criolos -, que chamou atenção para a gama de variedades de fala existente em uma comunidade qualquer, e abriu caminho para o estudo da influência dos fatores como sexo, idade, do falante – dialetologia, e mais recentemente a sociolingüística.

Faraco apresenta do início do estruturalismo – marco da lingüística moderna – com Saussure. Seu aluno francês Antoine Meillet, que por sua vez desenvolve uma concepção mais sociológica do falante e da língua, afirma também que a lingüística faria parte da Antropologia. Estudos e análises na área que levam em conta a história das línguas e da maneira que os falantes a utilizam no contexto social de dialetologia, sociolingüística como fator de diferenciação: Labov.

O professor Faraco apresenta o Círculo de Praga, e outros teóricos estruturalistas, o impacto dessa visão teórica no estudo da mudança e análise do sistema lingüístico e continua criticando o que chama de abordagem “reducionista” pelos estruturalistas.

“O pensamento gerativista em diacronia se identifica, portanto, plenamente com a tradição forte em lingüística de considerar as mudanças como direcionadas por forças internas à língua. Retoma-se, assim, a perspectiva estruturalista: Jakobson afirmava que as leis estruturais do sistema restringem o inventário das transições possíveis dum estado sincrônico a outro (cf. Jakobson 1957, reproduzido em Jakobson, 1963, p. 77); Martinet falava nas mudanças como submetidas aos princípios da economia da língua (1955); os gerativistas falam nas mudanças como submetidas aos princípios restritivos da gramática universal. A diferença é a hipótese inatista (o biologismo) destes que não estava naqueles.” p 169.

O autor a seguir fala do “estruturalismo de roupa nova”, isto é, o gerativismo. O gerativismo inatista, e procurava um modelo a partir de um sistema de regras proposto; que se reformulou na década de 1970: “introduziu a idéia de que a gramática universal é um conjunto de parâmetros variáveis, isto é, ela restringe as gramáticas possíveis, mas admite caminhos alternativos.”p.167

Finalmente, o autor Faraco apresenta repercussões nos estudos diacrônicos da perspectiva gerativista, e mostra a partir de Schlegel no século XIX, Schleicher, Sapir estudos de diacronia dos estudos tipológicos, que chega ao pensamento de Greenberg, justificando esta aproximação pois estas  perspectivas “pautam sua interpretação da mudança por critérios fundamentalmente imanentes” p. 175, excluindo da história das línguas e os falantes e seu contexto histórico-social.

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Tradução de literatura brasileira na Alemanha e tradução de clássicos alemães no Brasil

estudantes de alemão em 2010

Em 1999 antes que o livro eletrônico/ e-book virasse usual publiquei um artigo, aqui resumido e que não foi levado adiante por falta de interlocutores acadêmicos que se interessassem por isto na época:
Brazilian Literature Report of Use and Making a German Literature Data Base
Universidade Federal de Santa Catarina, Brazil
German literature in an electronic medium aims at creating a bilingual literary data bank with texts on the humanities, with special reference to German literature. The data bank will be of use to discuss and disseminate German literature in Brazil, as well as hypertext questions, translation theory and history of literature/translation.
http://tracearchive.ntu.ac.uk/incubation/level2/speakers/abstracts.htm

Depois de um certo tempo, vi algumas iniciativas que coincidem com o objetivo do projeto na época e que estão em execução hoje:

Mapeamento da literatura brasileira no exterior – http://conexoesitaucultural.org.br/sobre/

Se interessa em publicar o seu livro de contos ou romance em alemão? Olhe as dicas, e fique de olho
Agência que trabalha com autores brasileiros http://www.mertin-litag.de/
Tradutor, jornalista http://www.michael-kegler.de/
Tradutora https://www.facebook.com/maria.hummitzsch
Tradutora: http://www.linkedin.com/pub/kristina-michahelles/32/44/363

Editoras http://www.weltbild.de/ (esta é popular/bolso e já publica os livros online também)

Editoras que já participaram de edital para traduções da Biblioteca Nacional:
http://www.schoeffling.de/
http://www.suhrkamp.de/
http://www.a1-verlag.de/
http://www.assoziation-a.de/
http://www.callis.com.br/

Já publicou autores brasileiros em alemão:
http://www.randomhouse.de/catalog/catalog.jsp?lbl=37000&nov=false

Entrevista na íntegra feita por Raquel Cozern e publicada na Folha de São Paulo. Marifé Boix García, espanhola que trabalha desde 1994 na feira e hoje vice-presidente, também comentou – “Mantenho aqui as aspas dela, que não saíram na edição.”

Juergen Boos organizará a Feira do Livro de Frankfurt em 2013, a maior feira mundial do mercado editorial terá o Brasil como convidado de honra, e cabe à FBN elencar que escritores nos representarão no megaevento. “Best-sellers são perigosos”: íntegra da entrevista com Juergen Boos, presidente da Feira de Frankfurt

http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/08/12/best-sellers-sao-perigosos/

Canção do Exílio – contextos (parte 2)

Outras ligações da Alemanha e da língua alemã com Gonçalves Dias e contextos históricos

Podemos começar a entender a ligação da epígrafe de um famoso autor alemão em obra indigenista/romântica brasileira. A Canção de Exílio abre a publicação de Gonçalves Dias, e tem como epígrafe fragmento do Lied de Mignon (também traduzido como Balada ou Canção), retirado do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, aqui traduzido por Manuel Bandeira (1952):

 

“Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,

Conheceis o país onde florescem as laranjeiras?

Im dunkeln Laud die Gold-Orangem glühn,

Ardem na escura fronde os frutos de ouro,

Kennst du es wohl?

Conhecê-lo?

–         Dahin, dahin!

– Para lá, para lá

Möch ich… ziehn.

quisera eu ir!” Johann Wolfgang von Goethe

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

A ligação de Gonçalves Dias com a cultura alemã não era apenas ocasional, ou apenas com um de seus maiores autores: alcançava o interesse pela língua – inclusive com traduções de Schiller -, conforme verificamos em análise literária:

“Um primeiro contato com o texto de Gonçalves Dias e, logo, salta aos olhos a justeza encontrada pelo poeta maranhense na escolha da epígrafe que, retirada do romance de formação, Os Anos de Aprendizagem de Wilhem Meister, de Goethe, acomoda-se perfeitamente ao espírito da Canção do exílio. Ao escolher o fragmento da Balada de Mignon […] Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo que também vai percorrer a sua Canção, isto é, o desejo de voltar à Pátria. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo, já quase no final do livro, observa-se a moça agonizando e o seu médico, vendo-se a sós com Wilhem, afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “A natureza estranha dessa boa criança, de quem falamos agora, consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria, e o desejo pelo senhor, meu amigo, são, poderia mesmo dizer, os únicos elementos terrenos nela; ambos se tocam numa distância infinita; ambos são inacessíveis para essa alma singular”.

Se, por um lado, o drama da moça é marcado pela impossibilidade de realização de seu duplo desejo; por outro, o simples fato de o autor brasileiro ter recorrido ao referencial alemão exemplifica o diálogo constante que este, sempre ligado aos grandes temas, trava com a literatura européia.7 É possível perceber ainda que tanto no trecho do poema quanto no fragmento acima, o desejo de voltar é perpassado por uma forte nostalgia que, por sua vez, emblematiza a figura do expatriado. Portanto, a epígrafe da Canção do Exílio, apesar de Augusto Mayer questionar a liberdade com que Gonçalves Dias mutilou o poema original,8 apresenta, de antemão, dois dos motivos românticos que, juntamente com a metáfora da natureza, predominam no poema gonçalvino, ou seja, a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal.”

7 Gonçalves Dias nutria, por exemplo, uma profunda admiração pela literatura alemã, tanto que, durante o ano letivo de 1843/1844, o poeta começou a estudar alemão para poder ler diretamente os poetas dessa língua. Em carta a Teófilo Leal, datada de 27 de agosto de 1843, ele escreve: “Se eu contasse um pouco mais comigo – por outra se eu soubesse grego e alemão – partia já para o Rio. Assim continuarei a escrever o meu poema – o meu romance e as minhas poesias soltas – estudarei alemão – e creio que um ano não será mal empregado”. Cf. PEREIRA, L. M. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1943. p. 50.

8 Cf. MAYER, A. Sobre uma epígrafe. In: ___. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964. p. 95-99.  (MARQUES, p. 81-82)

O título do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre também é traduzido como “Os Anos de Aprendizagem” ou “Os Anos de Aprendizado”de Wilhelm Meister, e inaugurou o gênero que se chama Bildungsroman, traduzido como “Romance de Formação” –  o personagem é “exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.” (WIKIPEDIA).  Assim como apontamos anteriormente diferenças entre o romantismo europeu e o brasileiro, a seguir apresenta-se a “busca da essência da nacionalidade”

“Na Europa o problema se definiu primeiro na Alemanha e estava ligado ao longo processo de enfraquecimento da cultura alemã pela sedução que a civilização francesa vinha exercendo, desde o século XVII, sobre a aristocracia dominante nas inúmeras unidades políticas em que se dividia o país. De um modo geral, os românticos europeus, em sua aspiração de reencontrar o caráter da nação “em sua pureza original”, voltaram-se para suas origens históricas (acarretando o amplo movimento de revalorização da Idade Média) ou para o povo, transformado em quase uma entidade mítica, porque nele, muito menos contaminado do que as classes eruditas pelos valores “impuros” (alienígenas), estaria preservada a alma nacional (daí as inúmeras complilações de cancioneiros populares, bem como o surgimento do estudo científico do folclore, que se inicia justamente na Alemanha).” (ALMEIDA, p.43)

 

Goethe na Italy by Johann Heinrich Wilhelm Tischbien (1787)

Outros dados importantes a serem destacados sobre “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”: o personagem se associa à uma “sociedade secreta”, e muitos dizem que seria uma referência à Maçonaria – muito em voga na época (Goethe foi associado a um ramo chamado Illuminati); e que o livro foi publicado logo após o estrondoso sucesso dos “Sofrimentos do Jovem Werther”, que causou uma onda assustadora de suicídios na Europa.

Sobre o poema afirma CANDIDO (2009) que “A celebração da natureza, por exemplo, seja como realidade presente, seja evocada apela saudade, em peças que ficaram entre as mais queridas, como CANÇÃO do EXÍLIO…” É de VALLE (2009) uma observação que contrapõe a vida real do poeta à imagem do poeta romântico com ares de trovador:

“É durante os sete anos que esteve pela primeira vez em Portugal, que escreve alguns poemas de seu primeiro livro, aí sentindo as saudades do sabiá e das palmeiras com a “Canção do Exílio”. Note-se que, de certa forma, para um jovem do interior uma vida de estudante em Coimbra, desfrutando do que culturalmente desejava, rodeado de bons amigos, e ainda tendo algumas namoradas, é curiosa a nostalgia por sua terra natal, onde nada disto desfrutava… Diga-se de passagem que Gonçalves Dias era pardo (o que não era bem visto) e de somente um metro e meio de altura, o que, para um homem não é considerado atraente. Porém, seja pelo que for, cativava as mulheres. Pela vida toda, teve muitas namoradas, às vezes mais de uma ao mesmo tempo, e muitas deixaram por escrito seu encanto pelo poeta! Certa vez quase morre por ter sido flagrado com uma mulher comprometida, coisa que comprova sua agitada vida amorosa… De que tanto se queixava o romântico?”

Canção do Exílio     Gonçalves Dias  – 1846

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá

Nosso céu tem mais estrelas

O eu-lírico de “Canção” possui diferentes instrumentos que prestigiam temas diversos: Deus, o amor e a pátria. A ambientação criada pela escolha dos instrumentos (“harpa religiosa”, “lira”, “alaúde”) e seus acessórios (“festões”, “engrinaldada”) determinam a relação do poema com o medievalismo. Ao mencionar que seu alaúde pertencera a antigos cantores de trovas de amores, o poeta incorpora, através do instrumento herdado, a tradição dos trovadores medievais. Dessa forma, há uma justificação para o medievalismo gonçalvino, ele é uma herança dos antigos bardos. (CHIARI, 2011)

Da mesma maneira que teve reconhecimento, Gonçalves Dias teve ferrenhos críticos, aqui reproduzo um que discute se a literatura é brasileira ou não, e outro, escritor da época, que talvez coloque na opinião do personagem a discussão que acontecia sobre os escritores românticos:

“sem língua à parte não há literatura à parte…e essa polêmica secundária que alguns poetas, e mais modernamente o Sr. Gonçalves Dias parecem ter indigitado: saber, que a nossa literatura deve ser aquilo que ele intitulou nas suas coleções poéticas – poesias americanas.  […]

Com pouca exceção, todos nossos patrícios que se haviam erguido poetas, tinham-se ido inspirar em terra portuguesa, na leitura dos velhos livros, e nas grandezas da mãe pátria…Não há nada nesses homens que ressumbre brasileirismo; nem sequer um brado de homem livre da colônia – nada.” (RONCARI, p. 309)

“Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas das florestas, nas torrentes das serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite, como se acordassem procurando túmulos, e perguntando como Hamleto no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração: que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos, que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores – que tudo isto é sublime nos livros mas é soberanamente desagradável na realidade” (AZEVEDO apud CANDIDO, p.333)

Esperamos ter costurado através dos panoramas apresentados, os enquadramentos necessários para um melhor entendimento do contexto de produção. Inclusive, em novembro de 2011 completaram 147 anos da morte do autor. Assim, poder-se-ia através de análises esquematicamente aprofundadas levar-se adiante os estudos desta época de formação da Literatura Brasileira nos preparando para a comemoração dos 150 anos.

BIBLIOGRAFIA

ALENCAR, José de. Bênção Paterna (prefácio do autor). Obras completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.

ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

BANDEIRA, Manuel.Gonçalves Dias: esboço biográfico. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1952.

CANDIDO, Antonio. O Nacionalismo Literário. Formação da literatura brasileira – momentos decisivos. São Paulo, Rio de Janeiro: FAPESP, Ouro sobre Azul, 2009.

CHIARI, Giseli Gemmi. Presença do Medievalismo em Gonçalves Dias. In Fólio – Revista de Letras, vol. 3 no 1. Vitória da Conquista: UESB, 2011.

Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/folio/article/viewFile/554/613

DENIS, Ferdinand. Resumo da História Literária do Brasil. In GUILHERMINO CÉSAR (seleção e apresentação. Historiadores e críticos do romantismo. Rio de Janeiro, São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, Editora da Universidade de São Paulo, 1978.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Indianismo Revisitado. Gatos de outro saco. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LIMA, Luiz Costa. Natureza e História nos Trópicos. In O Controle do Imaginário – Razão e Civilização no Ocidente. São Paulo: Brasilense, 1984.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de. Discurso sobre a História da Literatura do Brasil. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do Pensamento Crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

MARQUES, W. J. O poema e a metáfora. In Revista Letras, n. 60, p. 79-93, jul./dez. Curitiba: Editora UFPR, 2003. Disponível em: <http://www.ufscar.br/~neo/Estudos/arquivos/opoemaeametafora.pdf&gt;

RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: EDUSP, 2002.

SALLES, Ricardo. O Papo Amarelo do Tucano: A Cultura Imperial. In Nostalgia Imperial: A formação da Identidade Nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbpooks, 1996.

VALLE, Gerson. Gonçalves Dias e o Romantismo. Palestra na Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, Petrópolis em 18/06/2009. Disponível em: <http://www.rauldeleoni.org/academicos_titulares/gerson.html&gt;

WIKIPEDIA. Bildungsroman. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bildungsroman

 

REFERÊNCIAS

 ABL. Biografia de Gonçalves Dias. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=866&sid=183 e

CYNTRÃO, Sylvia Helena. A ideologia nas canções de exílio: Ufanismo e Crítica. Brasília, 1988. Dissertação apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Disponível em:

http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/3969/1/1988_SylviaHelenaCynt%C3%A3o.pdf

WIKIPEDIA. Johann Wolfgang von Goethe. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe

VOLOBUEF, Karin. Friedrich Schiller e Gonçalves Dias. Pandaemonium germanicum 9/2005, 77-90. São Paulo: USP, 2005. Disponível em:

http://www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum/site/images/pdf/ed2005/Friedrich_Schiller_e_Gonalves_Dias.pdf

Zigeunerleben – forma de traduzir

Por muito tempo cantei em coros de música clássica. Neste último fiz traduções entre 2002 e 2004, além de orientar cantores que nunca tiveram contato com a língua alemã a pronunciar as músicas. A cereja do bolo: na apresentação de POMERODE (cidade de Santa Catarina onde ainda se fala alemão)  alguém da platéia comentou ao final: ” Nossa, parece que eles fizeram anos de Goethe Institut.” Quase pulei de alegria!

Mas a conversa aqui é outra… o processo de produzir a tradução.  Nesta tive que trabalhar o texto de forma quase literal, pois para o cantor a entonação da nota é importante, bem como saber o que e quando está dizendo. E aí que a tradução livre perde espaço.

Preste bem atenção: não estou dizendo que o “tradutor traidor” não deve existir. O que para textos longos pode ser ótimo (dependendo de quem traduz), inclusive enriquecedor… neste caso particular perde-se alguma coisa se “interpretarmos demais” o verso.

Arrumando meus arquivos achei a primeira versão do trabalho.

Quase esqueci de traduzir:  Zigeunerleben significa vida de cigano e é de Robert Schumann. O vídeo que publiquei é de uma competição na Áustria.

Im Schatten des Waldes, im Buchengezweig,

Da regt’s sich und raschelt und flüstert zugleich.

Es flackern die Flammen, es gaukelt der Schein

um bunte Gestalten, um Laub und Gestein.

Nas sombras da floresta, nos ramos das faias,

Lá se movem e fazem ruido e sussurram ao mesmo tempo.

As chamas bruxuleiam/tremulam, ilusionando a luz/brilho

em vultos/formas multicoloridas, nas folhagens e rochas.

.

Da ist der Zigeuner bewegliche Schaar

mit blitzendem Aug’ und mit wallendem Haar,

gesängt an des Niles geheiligter Fluth,

gebräunt von Hispaniens südlicher Glut.

Lá o cigano é um bando em movimento

com olhos que piscam e com cabelos ondulados,

canticos d/nas torrentes santificadas do Nilo,

bronzeados do/pelo ardor espanhol do sul.

.

Um’s lodernde Feuer in schwellendem Grün,

da lagern die Männer verwildert und kühn,

da kauern die Weiber und rüsten das Mahl,

und füllen geschäftig den alten Pokal.

Nas chamejantes(ardentes labaredas) do fogo na soleira/umbral verde,

lá acampam os homens selvagens e audazes,

lá as mulheres acocoram-se e preparam a refeição,

e enchem solicitamente a velha taça.

.

Und Sagen und Lieder ertönen im Rund,

wie Spaniens Gärten so blühend und bunt,

und magische Sprüche für Not und Gefahr

verkündet die Alte der horchenden Schaar.

E as lendas e canções ressoam na roda,

como jardins espanhóis tão florescentes e multicoloridos,

e adágios mágicos de urgência e perigo

preconizados pelos velhos para o bando atento

.

Schwarzäugige Mädchen beginnen den Tanz.

Da sprühen die Fackeln im rötlichen Glanz.

Es lockt die Guitarre, die Cymbel klingt,

wie wild und wilder der Reigen sich schlingt!

Meninas de olhos negros começam a dança.

Lá faíscam os archotes com brilho avermelhado.

A guitarra chama, os címbalos soam,

como precipitada e selvagemente as rodas se entrelaçam!

.

Dann ruh´n sie ermüdet vom nächtlichen Reih’n.

Es rauschen die Buchen in Schlummer sie ein.

Und die aus der glücklichen Heimat verbannt,

sie schauen im Traume das glückliche Land.

Então acalmam-se, fatigados do Reno noturno??.

As faias sussuram canções de ninar para eles

Que foram da pátria (terra natal) desterrado/exilado,

olham em sonhos para o país afortunado

.

Doch wie nun im Osten der Morgen erwacht,

verlöschen die schönen Gebilde der Nacht,

es scharret das Maulthier bei Tagesbeginn,

fort zieh’n die Gestalten, wer sagt dir wohin?

Agora como sempre acorda no leste das manhãs,

extinguem-se as belas/bonitas criações da noite,

o mulo scharret??? com começo do dia,

foram-se os vultos na marcha, quem te diz para onde?

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