Arquivo mensal: abril 2012

Conversa no ônibus – questão sobre a publicidade e semântica

Me ligaram de outro estado para tirar dúvida sobre esta questão. Achei muito curiosa e resolvi publicar, pois dá margem a questionamentos além de ter sido do vestibular da FUVEST-2004 .  Veja que os gabaritos apresentados são diferentes. Com qual deles você concorda ou discorda?

imagem da internet
Sentaram-se lado a lado um jovem publicitário e um velhinho muito religioso. O rapaz falava animadamente sobre sua profissão, mas notou que o assunto não despertava o mesmo entusiasmo no parceiro. Justificou-se, quase desafiando, com o velho chavão:
– A propaganda é a alma do negócio.
– Sem dúvida, respondeu o velhinho. Mas sou daqueles que acham que o sujeito dessa frase devia ser O NEGÓCIO.

a) A palavra ALMA tem o mesmo sentido para ambas as personagens? Justifique.
b) Seguindo a indicação do velhinho, redija a frase na versão que a ele pareceu mais coerente

A minha solução foi a mesma deste gabarito que publico e que concordo – existem duas respostas ao problema… Então na minha opinião, a melhor resposta é esta: http://www.elitecampinas.com.br/gabaritos/fuvest/fuvest_04_fase2_por_ELITE.pdf

a) Para o jovem publicitário, alma tem o sentido de essência, núcleo, a parte mais importante. Já para o velhinho, duas interpretações são possíveis: espírito, princípio da vida ou a essência, o núcleo, a parte mais importante. Embora o velhinho seja  muito religioso, a interpretação de alma como espírito não exclui totalmente seu sentido de essência, portanto, as duas respostas (sim ou não) são possíveis, contanto que se justifique coerentemente.

b) Quem respondeu ao item a)

sim deveria concluir que a frase correta seria “O negócio é a alma da propaganda.”;

para quem respondeu não, a frase seria “O negócio é a propaganda da alma.”

Algumas outras soluções da questão podem ser encontradas aqui:

http://www.cpv.com.br/vestibulares/FUVEST/2004/resolucoes/resolucao_fuvest_2004_f2_portugues.pdf

http://www.curso-objetivo.br/vestibular/resolucao_comentada/FUVEST/2004_2fase/1dia/fuvest2004_2fase_1dia.pdf

http://portugauss.blogspot.com.br/2011/06/aula-coerencia-textual.html

http://www.universitariobrasil.com.br/Arquivos/ResolucaoExames/130-FUV2FPOR2004.pdf

http://www.etapa.com.br/gabaritos/resolucao_pdf/gab_2004/01_fuvest/fase2/fuvest04p.pdf

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A língua como sistema de representação mental

Tarefa no grupo de estudos – Resumir os itens de 1 a 3 do primeiro capítulo do livro Teoria da Gramática: a Faculdade da Linguagem. Editora Caminho, do autor Eduardo Raposo. Na realidade apenas copiei os trechos mais importantes, com pequenas modificações e explicação de algumas nomenclaturas que não constam neste trecho.

1 – Introdução

Neste capítulo gostaria de caracterizar principalmente as questões de natureza epistemológica do programa da gramática generativa (gerativa no PB – português do Brasil).  Insistimos em particular na natureza “mentalista” da teoria, isto é, na concepção de que o seu objeto de estudo consiste em um sistema de regras e princípios radicados em última instância na mente humana.

A preocupação com o problema da aquisição da linguagem (em última instância com o seu aspecto biológico) tem estado no centro das preocupações de Chomsky e de outros generativistas, por exemplo, a célebre recensão crítica de Chomsky (1959) a Skinner (1957). É no entanto na TRL – Teoria da Regência e da Ligação ou GB – Government and Binding que se torna possível (talvez pela primeira vez) ancorar mais solidamente na teoria gramatical as investigações relativas à aquisição e desenvolvimento da linguagem na criança, através do modelo de “princípios e parâmetros”.

2 – A tensão entre a natureza e a convenção nos estudos da linguagem

Parece difícil escapar à conclusão que as propriedades essenciais da linguagem são diretamente determinadas por propriedades mentais dos seres que as falam, e que estudar a linguagem humana consiste em estudar determinadas propriedades da mente humana, radicadas em última instância na organização biológica da espécie.

A posição antimentalista tem usualmente uma fundamentação social: logo, a explicação última das propriedades da linguagem tem a ver com o seu funcionamento social; em última instãncia, é um produto convencional da cultura dos seres humanos vivendo em sociedade, e não um produto natural da sua organização mental. Esta dicotomia (1) sempre esteve presente na história da lingüística mas não será aprofundada neste livro.

A teoria da Gramática Generativa inscreve-se na corrente naturalista dos estudos sobre a linguagem, como algumas tradições históricas (escolásticos, Gramática de Port-Royal).

3- O programa de investigação da gramática generativa

Chomsky (1988) define o programa como o desenvolvimento das quatro questões (3):

(1) Qual é o conteúdo do sistema de conhecimentos do falante de uma determinada língua particular, por exemplo do Português? O que é que existe na mente deste falante que lhe permite falar/compreender expressões do Português e ter intuições de natureza fonológica, sintática e semântica sobre a sua língua?

(2) Como é que este sistema de conhecimentos se desenvolve na mente do falante? Que tipo de conhecimentos é necessário pressupor que a criança traz a priori para o processo de aquisição de uma língua particular para explicar o desenvolvimento dessa língua na sua mente?

(3) Como é que o sistema de conhecimentos adquirido é utilizado pelo falante em situaçãoes discursivas concretas?

(4) Quais são os sistemas físicos no cérebro do falante que sevem de base ao sistema de conhecimentos lingüísticos?

O empreeendimento generativista atribui um lugar central à segunda questão, tanto do ponto de vista filosófico/epistemológico como do ponto de vista ada teoria gramatical propriamente dita. Em particualar, o cuidado atribuído à interação entre a primeira e segunda questão é a pedra-de-torque da gramática generativa: nem todas as gramáticas que descrevem adequadamente os dados de uma língua particular são psicologicamente possíveis. É necessário, para além disso, que possam ter sido desenvolvidas pela criança com base no sistema de aquisição inicial.

Como o objetivo central é a apresentaçãoda teoria,  é a (1) e (2) que dedicamos mais espaço. Começamos portanto com algumas observações sobre a primeira, terceira e quarta, para depois nos ocuparmos mais longamente da segunda questão.

(1) Chomsky tem insistido várias vezes, nem a comunicação constitui o único uso que os seres humanos fazem da linguagem, nem é viável efetuar uma redução das complexas propriedades estruturais da linguagem a requisitos comunicativos.

(3) O termo “língua” no decorrer deste livro, e de um modo geral na literatura generativista, refere-se a um sistema de conhecimentos mental, e não ao conjunto de objetos abstratos ( frases ou expressões) determinado por este sistema. Então, é sinônimo de “gramática” (interiorizada) ou de “competência”. Chomsky (1986) utiliza nesta acepção o termo técnico “língua-I” (de língua interiorizada), opondo-se ao termo “língua-E” (de língua exteriorizada), que refere o conjunto de frases e expressões determinadas pela língua-I. O objeto de estudo da gramática generativa é a língua-I, não a língua-E.

Veja ainda uma resenha sobre este livro. Ou saiba mais sobre a carreira e prêmios deste pesquisador: http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=21072&op=all

Globalização, identidade e o local

Subtítulo: viajei na maionese na redação. Primeiro os textos que provocam, depois meu texto e a questão proposta em processo seletivo que participei. Eles demoraram a publicar a questão, que copiei abaixo, logo após a redação.

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Oswald de Andrade. Trecho do Manifesto Antropófago.

O questionamento sobre a identidade nacional parte do princípio de que o Brasil e os brasileiros teriam alguma peculiaridade em relação ao resto do mundo. O problema é justamente o contrário: não temos peculiaridade nenhuma. […]
A idéia ilusória de que somos uma nação particular, com características próprias, precisa ser combatida. No dia em que percebermos que somos um país amorfo, desinteressante, sem graça, talvez comecemos a buscar alternativas reais para nossa miséria social e cultural.” MAINARDI, Diogo. In: Veja, 29/08/01, p.151.

 

Disco O rei da vela

Já foi registrado que o nosso país é um dos que mais discutem a sua identidade; fato comprovado pelas inúmeras produções intelectuais e artísticas que tematizam o país. E na tendência globalizante os estudos internacionais cunharam a máxima que o “local é global”.

O substrato cultural brasileiro é formado por elementos diversos e conflitantes. Em vários momentos históricos houveram mudanças e este polimorfismo que nos caracteriza possui os movimentos de negação e de “volta às origens”.

A negação quer filtrar os elementos crioulos e sublimar, transformar e cunhar uma sociedade ideal ou cultura estrangeira imposta. por outro lado, indianistas, o genial Oswald de Andrade com o seu “Tupi or not tupi” mostram que a riqueza vem justamente da variedade. Precisamos reconhecer o passado de colônia, sim.

A globalização não poderá afetar a identidade cultural brasileira, pois ela já existe apesar das dificuldades de enquadrá-la. E talvez justamente pelas suas características tão múltiplas, esta marca brasileira exerce um fascínio nos estrangeiros que a conhecem. Finalmente, o que chamam de “alma” brasileira de parece cada vez mais com o que chamam globalização, pois é cada vez mais espelho do mundo apesar de regional.

 

PROPOSTA DE REDAÇÃO (continuação )
Uma das questões mais interessantes a respeito do Brasil é a preocupação extrema com sua identidade. Prova disso é a quantidade de teses, livros, filmes, personagens, enfim, produções intelectuais e artísticas que tematizam o país — enorme se comparada à de
outras sociedades. Para tentar compreender o problema, é preciso definir identidade como sendo um conjunto exclusivo de caracteres de uma nação.
Note-se que um ou outro aspecto pode ser semelhante ao de outra nação, mas o conjunto chamado identidade é exclusivo de cada cultura. Simultaneamente, a ausência de certas marcas contribui para caracterizar uma sociedade.

Quando se fala em Globalização, pensa-se, sobretudo, nos aspectos políticos e econômicos envolvidos no processo. No entanto, a face cultural do fenômeno, que raramente vem à tona, parece constituir fator fundamental para se compreender o panorama que está em vias de se formar. Diante desse quadro, responda:
Em que medida a identidade cultural brasileira é afetada pela globalização?

• Seu texto deverá ter até 30 linhas.
• A redação deve apresentar um título adequado e criativo.
• Os argumentos devem ser coerentes entre si, embora a abordagem possa ser intermediária.
• A modalidade escrita deve seguir a norma padrão do idioma.
• Sua dissertação deve, preferencialmente, seguir estruturas e estratégias valorizadas nos vestibulares, por isso evite redigir um artigo acadêmico típico do meio universitário.
• O texto será avaliado segundo cinco critérios: tema, tipo de texto, coerência, coesão e modalidade escrita.

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