Canção do Exílio – contextos (parte 2)

Outras ligações da Alemanha e da língua alemã com Gonçalves Dias e contextos históricos

Podemos começar a entender a ligação da epígrafe de um famoso autor alemão em obra indigenista/romântica brasileira. A Canção de Exílio abre a publicação de Gonçalves Dias, e tem como epígrafe fragmento do Lied de Mignon (também traduzido como Balada ou Canção), retirado do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, aqui traduzido por Manuel Bandeira (1952):

 

“Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,

Conheceis o país onde florescem as laranjeiras?

Im dunkeln Laud die Gold-Orangem glühn,

Ardem na escura fronde os frutos de ouro,

Kennst du es wohl?

Conhecê-lo?

–         Dahin, dahin!

– Para lá, para lá

Möch ich… ziehn.

quisera eu ir!” Johann Wolfgang von Goethe

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-alegre and Gonçalves de Magalhães (1858).

A ligação de Gonçalves Dias com a cultura alemã não era apenas ocasional, ou apenas com um de seus maiores autores: alcançava o interesse pela língua – inclusive com traduções de Schiller -, conforme verificamos em análise literária:

“Um primeiro contato com o texto de Gonçalves Dias e, logo, salta aos olhos a justeza encontrada pelo poeta maranhense na escolha da epígrafe que, retirada do romance de formação, Os Anos de Aprendizagem de Wilhem Meister, de Goethe, acomoda-se perfeitamente ao espírito da Canção do exílio. Ao escolher o fragmento da Balada de Mignon […] Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo que também vai percorrer a sua Canção, isto é, o desejo de voltar à Pátria. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo, já quase no final do livro, observa-se a moça agonizando e o seu médico, vendo-se a sós com Wilhem, afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “A natureza estranha dessa boa criança, de quem falamos agora, consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria, e o desejo pelo senhor, meu amigo, são, poderia mesmo dizer, os únicos elementos terrenos nela; ambos se tocam numa distância infinita; ambos são inacessíveis para essa alma singular”.

Se, por um lado, o drama da moça é marcado pela impossibilidade de realização de seu duplo desejo; por outro, o simples fato de o autor brasileiro ter recorrido ao referencial alemão exemplifica o diálogo constante que este, sempre ligado aos grandes temas, trava com a literatura européia.7 É possível perceber ainda que tanto no trecho do poema quanto no fragmento acima, o desejo de voltar é perpassado por uma forte nostalgia que, por sua vez, emblematiza a figura do expatriado. Portanto, a epígrafe da Canção do Exílio, apesar de Augusto Mayer questionar a liberdade com que Gonçalves Dias mutilou o poema original,8 apresenta, de antemão, dois dos motivos românticos que, juntamente com a metáfora da natureza, predominam no poema gonçalvino, ou seja, a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal.”

7 Gonçalves Dias nutria, por exemplo, uma profunda admiração pela literatura alemã, tanto que, durante o ano letivo de 1843/1844, o poeta começou a estudar alemão para poder ler diretamente os poetas dessa língua. Em carta a Teófilo Leal, datada de 27 de agosto de 1843, ele escreve: “Se eu contasse um pouco mais comigo – por outra se eu soubesse grego e alemão – partia já para o Rio. Assim continuarei a escrever o meu poema – o meu romance e as minhas poesias soltas – estudarei alemão – e creio que um ano não será mal empregado”. Cf. PEREIRA, L. M. A vida de Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1943. p. 50.

8 Cf. MAYER, A. Sobre uma epígrafe. In: ___. A chave e a máscara. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964. p. 95-99.  (MARQUES, p. 81-82)

O título do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre também é traduzido como “Os Anos de Aprendizagem” ou “Os Anos de Aprendizado”de Wilhelm Meister, e inaugurou o gênero que se chama Bildungsroman, traduzido como “Romance de Formação” –  o personagem é “exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estado de maior maturidade.” (WIKIPEDIA).  Assim como apontamos anteriormente diferenças entre o romantismo europeu e o brasileiro, a seguir apresenta-se a “busca da essência da nacionalidade”

“Na Europa o problema se definiu primeiro na Alemanha e estava ligado ao longo processo de enfraquecimento da cultura alemã pela sedução que a civilização francesa vinha exercendo, desde o século XVII, sobre a aristocracia dominante nas inúmeras unidades políticas em que se dividia o país. De um modo geral, os românticos europeus, em sua aspiração de reencontrar o caráter da nação “em sua pureza original”, voltaram-se para suas origens históricas (acarretando o amplo movimento de revalorização da Idade Média) ou para o povo, transformado em quase uma entidade mítica, porque nele, muito menos contaminado do que as classes eruditas pelos valores “impuros” (alienígenas), estaria preservada a alma nacional (daí as inúmeras complilações de cancioneiros populares, bem como o surgimento do estudo científico do folclore, que se inicia justamente na Alemanha).” (ALMEIDA, p.43)

 

Goethe na Italy by Johann Heinrich Wilhelm Tischbien (1787)

Outros dados importantes a serem destacados sobre “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”: o personagem se associa à uma “sociedade secreta”, e muitos dizem que seria uma referência à Maçonaria – muito em voga na época (Goethe foi associado a um ramo chamado Illuminati); e que o livro foi publicado logo após o estrondoso sucesso dos “Sofrimentos do Jovem Werther”, que causou uma onda assustadora de suicídios na Europa.

Sobre o poema afirma CANDIDO (2009) que “A celebração da natureza, por exemplo, seja como realidade presente, seja evocada apela saudade, em peças que ficaram entre as mais queridas, como CANÇÃO do EXÍLIO…” É de VALLE (2009) uma observação que contrapõe a vida real do poeta à imagem do poeta romântico com ares de trovador:

“É durante os sete anos que esteve pela primeira vez em Portugal, que escreve alguns poemas de seu primeiro livro, aí sentindo as saudades do sabiá e das palmeiras com a “Canção do Exílio”. Note-se que, de certa forma, para um jovem do interior uma vida de estudante em Coimbra, desfrutando do que culturalmente desejava, rodeado de bons amigos, e ainda tendo algumas namoradas, é curiosa a nostalgia por sua terra natal, onde nada disto desfrutava… Diga-se de passagem que Gonçalves Dias era pardo (o que não era bem visto) e de somente um metro e meio de altura, o que, para um homem não é considerado atraente. Porém, seja pelo que for, cativava as mulheres. Pela vida toda, teve muitas namoradas, às vezes mais de uma ao mesmo tempo, e muitas deixaram por escrito seu encanto pelo poeta! Certa vez quase morre por ter sido flagrado com uma mulher comprometida, coisa que comprova sua agitada vida amorosa… De que tanto se queixava o romântico?”

Canção do Exílio     Gonçalves Dias  – 1846

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá,

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá

Nosso céu tem mais estrelas

O eu-lírico de “Canção” possui diferentes instrumentos que prestigiam temas diversos: Deus, o amor e a pátria. A ambientação criada pela escolha dos instrumentos (“harpa religiosa”, “lira”, “alaúde”) e seus acessórios (“festões”, “engrinaldada”) determinam a relação do poema com o medievalismo. Ao mencionar que seu alaúde pertencera a antigos cantores de trovas de amores, o poeta incorpora, através do instrumento herdado, a tradição dos trovadores medievais. Dessa forma, há uma justificação para o medievalismo gonçalvino, ele é uma herança dos antigos bardos. (CHIARI, 2011)

Da mesma maneira que teve reconhecimento, Gonçalves Dias teve ferrenhos críticos, aqui reproduzo um que discute se a literatura é brasileira ou não, e outro, escritor da época, que talvez coloque na opinião do personagem a discussão que acontecia sobre os escritores românticos:

“sem língua à parte não há literatura à parte…e essa polêmica secundária que alguns poetas, e mais modernamente o Sr. Gonçalves Dias parecem ter indigitado: saber, que a nossa literatura deve ser aquilo que ele intitulou nas suas coleções poéticas – poesias americanas.  […]

Com pouca exceção, todos nossos patrícios que se haviam erguido poetas, tinham-se ido inspirar em terra portuguesa, na leitura dos velhos livros, e nas grandezas da mãe pátria…Não há nada nesses homens que ressumbre brasileirismo; nem sequer um brado de homem livre da colônia – nada.” (RONCARI, p. 309)

“Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas das florestas, nas torrentes das serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite, como se acordassem procurando túmulos, e perguntando como Hamleto no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que esqueceu-se talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração: que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos, que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores – que tudo isto é sublime nos livros mas é soberanamente desagradável na realidade” (AZEVEDO apud CANDIDO, p.333)

Esperamos ter costurado através dos panoramas apresentados, os enquadramentos necessários para um melhor entendimento do contexto de produção. Inclusive, em novembro de 2011 completaram 147 anos da morte do autor. Assim, poder-se-ia através de análises esquematicamente aprofundadas levar-se adiante os estudos desta época de formação da Literatura Brasileira nos preparando para a comemoração dos 150 anos.

BIBLIOGRAFIA

ALENCAR, José de. Bênção Paterna (prefácio do autor). Obras completas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.

ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do pensamento crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

BANDEIRA, Manuel.Gonçalves Dias: esboço biográfico. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1952.

CANDIDO, Antonio. O Nacionalismo Literário. Formação da literatura brasileira – momentos decisivos. São Paulo, Rio de Janeiro: FAPESP, Ouro sobre Azul, 2009.

CHIARI, Giseli Gemmi. Presença do Medievalismo em Gonçalves Dias. In Fólio – Revista de Letras, vol. 3 no 1. Vitória da Conquista: UESB, 2011.

Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/folio/article/viewFile/554/613

DENIS, Ferdinand. Resumo da História Literária do Brasil. In GUILHERMINO CÉSAR (seleção e apresentação. Historiadores e críticos do romantismo. Rio de Janeiro, São Paulo: Livros Técnicos e Científicos, Editora da Universidade de São Paulo, 1978.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Indianismo Revisitado. Gatos de outro saco. São Paulo: Brasiliense, 1981.

LIMA, Luiz Costa. Natureza e História nos Trópicos. In O Controle do Imaginário – Razão e Civilização no Ocidente. São Paulo: Brasilense, 1984.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de. Discurso sobre a História da Literatura do Brasil. In COUTINHO, Afrânio. Caminhos do Pensamento Crítico. Rio de Janeiro: Pallas/ INL-MEC, 1980.

MARQUES, W. J. O poema e a metáfora. In Revista Letras, n. 60, p. 79-93, jul./dez. Curitiba: Editora UFPR, 2003. Disponível em: <http://www.ufscar.br/~neo/Estudos/arquivos/opoemaeametafora.pdf&gt;

RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: EDUSP, 2002.

SALLES, Ricardo. O Papo Amarelo do Tucano: A Cultura Imperial. In Nostalgia Imperial: A formação da Identidade Nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Topbpooks, 1996.

VALLE, Gerson. Gonçalves Dias e o Romantismo. Palestra na Academia Brasileira de Poesia – Casa Raul de Leoni, Petrópolis em 18/06/2009. Disponível em: <http://www.rauldeleoni.org/academicos_titulares/gerson.html&gt;

WIKIPEDIA. Bildungsroman. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bildungsroman

 

REFERÊNCIAS

 ABL. Biografia de Gonçalves Dias. Disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=866&sid=183 e

CYNTRÃO, Sylvia Helena. A ideologia nas canções de exílio: Ufanismo e Crítica. Brasília, 1988. Dissertação apresentada ao Departamento de Teoria Literária e Literaturas. Disponível em:

http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/3969/1/1988_SylviaHelenaCynt%C3%A3o.pdf

WIKIPEDIA. Johann Wolfgang von Goethe. Disponível em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Wolfgang_von_Goethe

VOLOBUEF, Karin. Friedrich Schiller e Gonçalves Dias. Pandaemonium germanicum 9/2005, 77-90. São Paulo: USP, 2005. Disponível em:

http://www.fflch.usp.br/dlm/alemao/pandaemoniumgermanicum/site/images/pdf/ed2005/Friedrich_Schiller_e_Gonalves_Dias.pdf

Sobre fuiobrigada

Escrever dói e é compulsivo. Delirium, tremens.

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