Canção do Exílio – contextos (parte 1)

1)      Tarefa 3: Escolha de livro/trecho da literatura nacional e apresentar com ele alguns teóricos apresentados durante a disciplina.

Canção do Exílio – contextos histórico, biográfico e literário que podem ter influenciado a produção do poema.

“Estudados que sejam os leves vestígios remanescentes de três séculos de destruição, aí se acharão todos os pensamentos primitivos que excitam fortemente a imaginação; mas para que se nos deparem tais pensamentos em toda a sua energia, não será preciso buscá-los às hordas que a civilização destruiu lentamente, as quais ocultam as desgraças da raça americana nas plagas em que foram confinadas: e penetrando-se no seio das florestas, interrogando-se as nações livres, ver-se-ão os campos ainda vivificados por pensamentos verdadeiramente poéticos” (DENIS, 1826)

Pretende-se apresentar diversos teóricos discutidos durante este semestre, com pontos de vista e alguns contextos que teriam relevância no início do Romantismo brasileiro, a partir de uma das poesias e seu autor de destaque da época.

“A aparição de Gonçalves Dias chamou a atenção das musas brasileiras para a história e os costumes indianos. Os Timbiras, Y-Juca-Pyrama, Tabira e outros poemas do egrégio poeta acenderam as imaginações; a vida das tribos, vencidas há muito pela civilização, foi estudada nas memórias que nos deixaram os cronistas, e interrogados dos poetas, tirando-lhes todos alguma cousa, qual um idílio, qual um canto épico” (ASSIS apud COUTINHO, 1980)

Johann Moritz Rugendas
Chasse au Tigre (Caça à Onça) – Johann Moritz Rugendas

O poeta Gonçalves Dias é celebrado como um dos primeiros a apresentar em seus textos a “cor local” (ASSIS, 1873). Muitas fontes afirmam que o autor escreveu a Canção do Exílio em 1843, e sua primeira publicação foi nos “Os primeiros Cantos” em 1846.

“Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país… (…) Interrogando a vida brasileira e a natureza americana, pensadores e poetas acharão ali farto manancial de inspiração e irão dando fisionomia ao pensamento nacional. […]

Esta outra independência não tem sete de Setembro nem campo do Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitos trabalharão para ela até perfazê-la de todo”  (ASSIS, p. 355).

Temos que lembrar que a relação entre o Brasil e Portugal, pelo menos ideologicamente: “Quando o colonizador coloniza o colonizado, o propósito é sempre a destruição. Essa destruição pode ser pessoal, genocida ou etnocida. O colonizador mata a pessoa, mata o povo, ou então mata a outra cultura mediante a imposição da sua e a escravização do colonizado, se acaso sobrou algum.” (GALVÃO, p. 173-174)

“Nesses quatrocentos anos de História, o invasor, tornado colono, inicialmente lisonjeou-se acreditando ser colonizador, para depois descobrir-se colonizado. De invasor europeu, passou a perceber-se, no plano econômico, político e mesmo mental, como mero colonizado. No jogo dos interesses, instaurou-se o conflito que desembocou nas independências das colônias do continente americano desde o final do Setecentos até a vigência do Oitocentos.

Aí finca a raiz uma das mais persistentes posturas intelectuais no Brasil, o oscilar entre metrópole e colônia. A história da literatura, a história da cultura, a história da inteligência é permeada por esse dilema, em que o colonizado deseja ser ora só colonizador ora só colonizado, visando um terceiro termo integrado, nem colonizador nem colonizado, nunca atingido.” (GALVÃO, p. 175)

Conforme já citamos a poesia analisada foi escrita e publicada na primeira metade do século XIX, isto é, de acordo com SALLES (1996) o substrato cultural brasileiro já estava formado:

“Parte da definição de uma singularidade colonial era a existência de uma variante nacional brasileira da língua portuguesa, seja pela preservação de elementos quinhentistas no ambiente rural isolado, seja pela influência africana e indígena. Esta existência se tornaria com o romantismo uma tentativa consciente de afirmação da nacionalidade em oposição à variante portuguesa” p. 79-80

“Na base de um substrato cultural americano estão a produção a produção de uma dupla alteridade: 1) na esfera de uma mesma humanidade ocidental, a do colonizador europeu que séculos de experiência no Novo Mundo – e eventualmente, até mesmo alguma miscigenação – transformaram em um outro em relação às metrópoles e seus habitantes e; 2) a do indígena, do africano, do mestiço, portadores de uma humanidade diferente e primitiva ou mesmo bestializados” p.86 (SALLES, 1996)

Fazendeiro

Em publicações oficiais do governo imperial recolheram-se impressões sobre os filhos mestiços. Apesar de muitas vezes por pressão da sociedade não serem assumidos, muitos recebiam aporte financeiro e educação direcionada antes exclusivamente direcionada aos brancos europeus: “…mas os crioulos, filhos destes, já apresentam notável inteligência, e os mestiços igualam o europeu e sua descendência em capacidade, força e extensão das faculdades intelectuais.” (MACEDO apud SALLES, p.90) Gonçalves Dias nasceu no interior do Maranhão e era filho do comerciante português João Manuel Gonçalves Dias e da mestiça cafuza Vicência Mendes Ferreira, e, portanto com ascendência das três raças que formaram o povo brasileiro. Nasceu um ano após a independência do Brasil, em 10 de agosto de 1823. João Manuel abandona a mãe de Gonçalves Dias quando este tinha 6 anos de idade  para se casar com uma branca. O progenitor fica com o pequeno Antônio, e matriculou-o em colégio, o que se pode considerar um privilégio para quem possuísse suas características étnicas e sociais nessa época. Aos 10 anos é colocado como caixeiro e encarregado da escrituração dos negócios do pai, que reconhece seu esforço e inteligência; e aos 12 anos o retira do balcão para que estude latim, francês e filosofia. Com orgulho dos talentos e esforço demonstrados pelo filho, quando completa 15 anos o leva para São Luís na intenção de embarcar com ele para Portugal para completar o segundo grau. João Manuel, natural de Trás-os-Montes, morre ainda em São Luís em 1837.  Marya Louise Pratt usa o conceito de transculturação para falar do Romantismo:

“Em alguns setores da cultura crioula, então, uma natureza americana glorificada e uma antiguidade americana já existiam como instrumentos ideológicos, fontes de identificação e orgulho americanistas alimentando um sentimento crescente de separação da Europa […]

Ocidentais estão acostumados a pensar os projetos românticos de liberdade, individualismo e liberalismo como emanando da Europa para a periferia colonial, mas menos acostumados a pensar as emanações da zona de contato [áreas de contato entre europeus e as realidades coloniais] de volta para a Europa” (PRATT apud SALLES, p.112)

No ano seguinte, com a ajuda da madrasta Adelaide Ramos de Almeida e de um vizinho pôde viajar para Portugal para completar os estudos secundários e matricular-se no curso de Direito em 1840. Gonçalves Dias participou de um grupo de poetas chamados de “medievalistas” da Gazeta Literária e de O Trovador, compartilhando das idéias românticas de Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Antonio Feliciano de Castilho. Além da influência portuguesa virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. No meio do seu bacharelado, por causa da Balaiada (1838 a 1841), a situação financeira da família ficou difícil no Maranhão e a senhora Adelaide pediu-lhe que voltasse de Coimbra. Mas graças ao auxílio e apoio de colegas de faculdade que ofereceram moradia e alimentação, ele prosseguiu nos estudos e se formou em 1845.

“À maneira do Arcadismo, o Romantismo surge como momento de negação; negação, neste caso, e na literatura luso-brasileira, mais profunda e revolucionária, porque visava a redefinir não si a atitude poética, mas o próprio lugar do homem no mundo e na sociedade.” p.341

“Nesse processo verificamos o intuito de praticar a literatura, ao mesmo tempo, como atividade desinteressada e como instrumento, utilizando-a ao modo de um recurso de valorização do país – quer no ato de fazer aqui o mesmo que se fazia na Europa culta, quer exprimindo a realidade local. p.327

“… resultando um momento harmonioso e íntegro, que ainda hoje parece a muitos o mais brasileiro, mais autêntico dentre os que tivemos.

Os contemporâneos intuíram ou pressentiram este fato, arraigando-se em conseqüência no seu espírito a noção de que fundavam a literatura brasileira. Cada um que vinha – Magalhães, Gonçalves Dias, Alencar, Franklin Távora, Taunay – imaginava-se detentor da fórmula ideal de fundação, referindo-se invariavelmente às condições previstas por Denis e retomadas pelo grupo da Niterói: expressão nacional autêntica.” p.332 (CÂNDIDO, 2009)

Quando falamos em romantismo no Brasil, é interessante destacar que há um deslocamento semântico significativo para o movimento literário europeu:

“O culto da tristeza e da saudade, a freqüência do tema do exílio entre os moços poetas simbiotizavam a melancolia de quem já não estava na Europa com a de quem se sentia inferior ou não reconhecido em sua própria terra. Assim, mesmo o sentimentalismo comum ao romantismo brasileiro e ao romantismo “normal” decorria de motivos diferentes” (LIMA, pg. 135)

Funcionário a passeio com a família

Ao contrário de escritores brasileiros que se europeizaram além da conta mesmo com um contato menor que o seu, Gonçalves Dias utilizaria a cultura humanista adquirida no velho mundo com marcas brasileiras inconfundíveis: apesar de ter a maior parte da sua formação em Portugal e vivido 14 dos 41 anos de vida. Um exemplo do paradoxo europeizante, quase uma pérola inusitada é o trecho de um dos primeiros textos historiográficos da literatura brasileira; que fala, por exemplo, da exaustiva procura de textos sobre a literatura brasileira, mas cita cidades européias como fontes:

“Eis tudo o que sobre a literatura do Brasil se tem escrito até hoje; se só por isso nos guiássemos, na impossibilidade em que ficaríamos de nada poder acrescentar, teríamos preferido traduzir este pouco; o que nada serviria para a historia. […] a leitura do imenso trabalho biográfico do Abade Barbosa, para podermos achar por acaso aqui e ali o nome de algum Brasileiro distinto no meio dessa aluvião de nomes colecionados às vezes com bem pouca crítica. Ainda assim convinha ler suas obras; eis aí uma quase insuperável dificuldade. Embalde por algumas delas, de que tínhamos notícia, investigamos todas as Bibliotecas de Paris, de Roma, de Florença, de Pádua, e de outras principais cidades da Itália que visitamos…” p.27

“A poesia brasileira não é uma indígena civilizada; é uma Grega vestida à francesa e à portuguesa, e climatizada no Brasil; é uma virgem do Hélicon que, peregrinando pelo mundo, estragou seu manto, talhado pelas mãos de Homero, e sentada à sombra das palmeiras da América, se apraz ainda com as reminiscências da pátria, cuida ouvir o doce murmúrio da castalia, o trépido sussuro do Lodon e do Ismeno, e toma por um rouxinol o sabiá que gorjeia entre os galhos da laranjeira. Enfeitiçados por esse nume sedutor, por essa bela estrangeira, os poetas brasileiros se deixaram levar por seus cânticos, e olvidaram as simples imagens que uma natureza virgem com tanta profusão lhes oferecia.” p. 31-32 (MAGALHÃES, 1836)

A respeito desta divisão da “antiga” crítica literária portuguesa e uma nascente e ativa crítica brasileira fala José de Alencar (1872):

“Tinha bem que ver, se eu desse ao carioca, esse parisiense americano, esse ateniense dos trópicos, uma paródia insulsa dos costumes portugueses, que entre nós saturam-se de dia em dia do gênio francês. A áurea scintilla da raça latina, que a família gaulesa herdou da romana, tem de a transmitir a nós, família brasileira, futuro chefe dessa raça.

A manga, da primeira vez que a prova, acha-lhe o estrangeiro gosto de terebentina; depois de habituado, regala-se com o sabor delicioso. Assim acontece com os poucos livros realmente brasileiros: o paladar português sente neles um travo; mas se aqui vivem conosco, sob o mesmo clima, atraídos pelos costumes da família e da pátria irmãs, logo ressoam docemente aos ouvidos lusos os nossos idiotismos brasileiros, que dantes lhes destoavam a ponto de os ter em conta de senões.” p.37

“O indianismo dos primeiros tempos do romantismo que poderia redundar numa valorização excessiva do elemento americano na formação da nacionalidade deveria ser depurado e enquadrado na ordem imperial moderna, civilizada, científica e européia” (SALLES, p.103.) A convergência de interesses resultou na fundação em 1838 do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro que tinha como um dos objetivos validar a “civilização européia” através de artigos, debates e prêmios pela produção intelectual direcionada.

“Se o esforço sistemático dos intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro tinha a respeitabilidade da produção científica, não possuía, contudo, – por sua própria natureza erudita – o poder de irradiação e de metáfora necessário para a constituição de um verdadeiro mito de formação. Seria necessário um veículo mais abrangente – e também com maior elasticidade e poder de evocação da fantasia – para a produção de um mito da nacionalidade que ganhasse o imaginário coletivo e transcendesse obras e criadores determinados. Este veículo foi a produção literária e artística.

Boa parte – talvez aquilo de mais significativo – da produção literária e artística do período romântico esteve vinculada à temática da afirmação das características individuais da nova nacionalidade.” (SALLES, p.106.)

Enterro de um índio

O crítico literário Antônio Cândido diz sobre o indianismo que “…o tema indígena aparece tratado ao modo romântico, embora de passagem, é a NÊNIA de Firmino Rodrigues Silva (1837), reconhecida por todos os sucessores imediatos como ponto inicial do Indianismo romântico.”:

“…. denota tendência para particularizar os grandes temas, as grandes atitudes de que se nutria a literatura ocidental, inserindo-as na realidade local, tratando-as como próprias de uma tradição brasileira. Assim, o espírito cavalheiresco é enxertado no aborígene, a ética e a cortesia do gentil-homem são trazidas para interpretar o seu comportamento. A distinção pode parecer especiosa mas o seu fundamento se encontra na atitude claramente diversa de um Basílio da Gama e de um José Alencar” (CÂNDIDO, p.339)

Como afirma ALMEIDA (1999): “A primeira forma cabal de expressão do nacionalismo literário romântico no Brasil foi, pois, o indianismo, firmado na poesia com Gonçalves Dias (1846)…” Apesar de alguns setores da Igreja mais tarde se posicionarem a favor da abolição, pesava na escolha o fato dos negros por muito tempo, e por senso comum “não possuírem alma” (SIC). O autor também procura explicar a razão de, apesar de numericamente significativo a raça negra nunca foi encaixada nos moldes heróicos dos autores brasileiros; que em grande parte eram sustentados pelos seus pais e avós senhores de engenho e/ou dependentes dos seus negócios:

“Se refletirmos no dilema colocado para o escritor romântico brasileiro, que procurava encontrar símbolos históricos nacionais com que se afirmar frente ao Velho Mundo, e via-se confrontado com a realidade inequívoca da formação predominantemente européia do país, não é difícil compreender que o processo de mitificação do indígena, longe de ser um modismo epidérmico, constituiu uma resposta cultural adequada, única talvez possível na conjuntura da época. A mitificação do colonizador europeu seria um conta-senso. No que diz respeito ao negro, sua inadequação a um tratamento heróico-mítico era ainda mais evidente: além de ser, como o europeu, alienígena, esteve desde o início ligado ao trabalho servil, considerado degradante. Era impossível fazer de um herói negro um mito de significado nacional.” (ALMEIDA, p. 28-29)

A partir deste contexto podemos começar a entender a ligação da epígrafe de um famoso autor alemão em obra indigenista/romântica brasileira. A Canção de Exílio abre a publicação de Gonçalves Dias, e tem como epígrafe fragmento do Lied de Mignon (também traduzido como Balada ou Canção), retirado do romance Wilhelm Meisters Lehrjahre de Goethe, aqui traduzido por Manuel Bandeira (1952):

 

“Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,

Conheceis o país onde florescem as laranjeiras?

Im dunkeln Laud die Gold-Orangem glühn,

Ardem na escura fronde os frutos de ouro,

Kennst du es wohl?

Conhecê-lo?

–         Dahin, dahin!

– Para lá, para lá

Möch ich… ziehn.

quisera eu ir!”

Johann Wolfgang von Goethe   (bibliografia e continuação no próximo post)

Sobre fuiobrigada

Escrever dói e é compulsivo. Delirium, tremens.

Publicado em 18/01/2012, em Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Estatutariamente, a Igreja concentra categorias espec ficas de membros, de acordo com o posicionamento de cada um em rela ão vida da igreja.

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