A arte como procedimento – estranhamento, singularização, desfamiliarização

Knife grinder - "o afiador" de Malevich

“A arte como procedimento” – quase um fichamento e algum contexto histórico

Viktor Borisovich Chklovski fundou o OPOYAZ (Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética), um dos principais grupos do Círculo Lingüístico de Moscou que influenciou autores como Bertold Brecht, dentre outros estudiosos e cineastas de renome. Crítico literário, escritor e cenógrafo é considerado por muitos o pai do formalismo russo.

Segundo Eagleton, os formalistas surgiram na Rússia antes de 1917 e suas idéias floresceram durante as décadas de 1920 e 30 até serem silenciadas/censuradas pelo stalinismo.

O texto “O que é literatura?” afirma que o formalismo foi a aplicação da lingüística ao mundo da literatura “…. a literatura não era uma pseudo-religião, ou psicologia, ou sociologia, mas uma organização particular da linguagem. Tinha suas leis específicas suas estruturas e mecanismos, que deviam ser estudados em si, e não reduzidos a alguma outra coisa.”

Chklovski cunhou e discutiu em seus textos o conceito de ostranenie, que pode ser traduzido como estranhamento, singularização ou desfamiliarização. O título do artigo possui variação menor “A Arte como processo” ou “A Arte com procedimento”. O nome do autor também possui outras grafias como Shklovskii ou Shklovsky, devido às transliterações do cirílico para diferentes línguas.

No texto o autor inicia expondo o conceito “A arte é pensar por imagens” de Potebnia e os seus seguidores diziam que não existe arte e poesia sem imagem. Entre os discípulos, com destaque para Ovsianiki-Kulikovski que aprofundou estudos iniciais de Potebnia no que se refere à fábula e serviu de fundamento para tentar estender e aplicar o conceito à música, arquitetura e poesia lírica. Após 15 anos de trabalho infrutífero Ovsianiki-Kulikovski isolou “…a poesia lírica, a arquitetura e a música, e a ver aí uma forma singular de arte, arte sem imagens, e a defini-las como artes líricas que se dirigem imediatamente às emoções.”

Chklovski afirma que a fábula é mais simbólica que o poema, o provérbio mais simbólico que a fábula… e que o problema foi esta e outra definição “A arte é antes de tudo criadora de símbolos” resistiram e sobreviveram à derrocada da teoria sobre a qual estava fundada, mais intensamente na corrente simbolista e entre os seus teóricos. “…a poesia = a imagem, serviu de fundamento a toda teoria que afirma que a imagem = o símbolo = a faculdade de a imagem tornar-se um predicado constante para sujeitos diferentes. Esta conclusão seduziu os simbolistas… pela afinidade com as suas idéias, e se acha na base da teoria simbolista.”

A partir deste primeiro momento o texto “A arte como procedimento” se contrapõe aos primeiros argumentos apresentados e começa a desenvolver e apresentar conceitos que ajudarão a apresentar de maneira melhor a singularização:

– “…as imagens são quase que imóveis; de século em século, de país em país, de poeta em poeta, elas se transmitem sem serem mudadas.”

– “Todo o trabalho das escolas poéticas não é mais que a acumulação e revelação de novos procedimentos para dispor e elaborar o material verbal, e este consiste antes na disposição das imagens que na sua criação.”

– “… o pensamento por imagens não é o vínculo que une todas as disciplinas da arte, mesmo da arte literária; a mudança das imagens não constitui a essência do desenvolvimento poético.”

Ainda destaca que Potebnia não distinguia a língua da poesia da língua da prosa, que ele não percebeu que existem dois tipos de imagens: “a imagem como um meio prático de pensar, meio de agrupar os objetos e a imagem poética, meio de reforçar a impressão.” E se utiliza de autores como Spencer, R. Avenarius, A. Vesselovski para confirmar que “A idéia da economia de energia como lei e objetivo da criação é talvez verdadeira no caso particular da linguagem, ou seja, na língua cotidiana; estas mesmas idéias foram estendidas á língua poética, devido ao não reconhecimento da diferença que opõe as leis da língua quotidiana às da língua poética. …Por isso devemos tratar as leis da despesa e economia na língua poética dentro do seu próprio campo, e não por analogia com a língua prosaica.”

Chklovski continua “As leis de nosso discurso prosaico com frases inacabadas e palavras pronunciadas pela metade se explicam pelo processo de automatização” afirmando que este processo também acarreta inconsciência. Para contrapor, apresenta como deve ser o ato de percepção: “E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a direção da percepção. O ato de percepção da arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado…”

Agora mostra com o autor Leon Tolstoi nos textos exemplos (Que Vergonha, Kholstomer, Guerra e Paz, Ressureição, A Sonata a Kreutzer) e mecanismos de singularização: trata cada incidente como se acontecesse pela primeira vez, emprega na descrição do objeto outras palavras tomadas emprestadas da descrição das partes correspondentes em outros objetos, utiliza os objetos fora do contexto; substituição das palavras da linguagem corrente pelas palavras habituais de uso religioso. Especialmente neste último Chklovski afirma que muita gente considerava blasfêmia, e ofensivo causando o estranhamento. Daí os formalistas iniciaram uma nova forma de análise e de evidenciar os recursos para causar diferentes recepções: som, imagens, ritmo, sintaxe, métrica, rima, técnicas narrativas.

Para o crítico Chklovski é necessário também esclarecer os limites da utilização deste recurso: quase sempre que há imagem, há singularização. “…a imagem não é um predicado constante para sujeitos variáveis. O objetivo da imagem não é tornar mais próxima de nossa compreensão a significação que ela traz, mas criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento.”

E traz o objeto erótico à baila, que geralmente é apresentado como uma coisa jamais vista com os autores Gogol, D. Savodnikov, Rybnikov, Romanov, D.S. Zelenine, Boccaccio, Afanassiev e Hamsun. A sensação de paralelismo e não-coincidência de uma semelhança transfere para uma nova esfera a percepção habitual do objeto: de forma velada, afastando-o da compreensão; adivinhação como descrição, definindo o objeto por palavras que habitualmente não são associadas a ele; uso da singularização ao representar os órgãos sexuais.

Na última parte do texto ele fala estranhamento e um processo de desfamiliarização que ocorre na produção literária: a linguagem popular para a época usada por Pushkin (publicou de 1815 a 1877) e que para os contemporâneos era difícil e surpreendente. No início do século XX houve na Rússia a preferência de alguns autores darem preferência a produções dialetais e pelos barbarismos. Cada um chama atenção à sua maneira, no outro oposto em Guerra e Paz nos discursos em francês eram utilizadas palavras russas.  O autor conclui que apesar da tendência automatizante, “ Na arte há uma ordem; entretanto, ….e o ritmo estético consiste num ritmo prosaico violado; houve tentativas para sistematizar estas violaçãos.”

Não é à toa que o formalismo russo antecipa certos aspectos e influenciará de forma decisiva na Escola de Praga e no Estruturalismo. Com Saussure e as dicotomias sincroniaX diacronia, paroleX langue, sintagmaXparadigma e significanteXsignificado que foram a base para a construção do que é a Lingüística como a conhecemos no século XXI.

Chklovski vislumbra deslocamentos de significado temporais ou não, afastamentos ou aproximações do objeto e que mesmo para a singularização há limites determinados. O automatismo poderia ser assistir a um filme tipo blockbuster, e a singularização a um filme alternativo ou artístico… em outro momento o autor mesmo explicita esta tendência, como acontece na língua ou na produção artística poderá se inverter.  Nada mais atual do que falar de automatismo e inconsciência que o autor mostra: nas artes, na vida cotidiana e na política é cada vez mais necessária uma singularização: quem sabe despertando a consciência e sensibilidade através da arte e da linguagem.

 

REFERÊNCIAS

Viktor Chklovski, “A arte como procedimento” in Teoria da literatura: os formalistas russos, Porto Alegre, Globo, 1976. 39-56

Terry Eagleton, “O que é literatura?” in Teoria da literatura: uma introdução, São Paulo, Martins Fontes, 1983. cap.1

Consultado no dia 20 de julho de 2011  http://pt.wikipedia.org/wiki/Estranhamento

Consultado no dia 18 de julho de 2011  http://pt.wikipedia.org/wiki/Viktor_Chklovski

Sobre fuiobrigada

Escrever dói e é compulsivo. Delirium, tremens.

Publicado em 18/08/2011, em Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Eila, surpresa boa o blog… e eu que buscava pelo autor, dou de cara com seu texto… super bom! Pena que não vou poder comentar agora como mereceria, porque estou no meio de um trabalho, mas logo voltarei para conversarmos sobre a ideia que vc expôs. Amei saber do blog e me subscrevi. Ele segue ativo? Mande notícias! Beijos, gau.

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