Arquivo mensal: julho 2011

Angústia e morte

Resolvi escrever este post após ver este texto que fala um pouco do que é sobreviver a uma morte do ente querido a vida é um fio e me lembrei também do que uma amiga escreveu sobre a morte de pais no blog.

Estou com um livro em minhas mãos chamado A História Universal da Angústia “concebido segundo a História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges, que compilou uma série de contos sobre bandidos de vários países e épocas”.

Na contracapa existe uma advertência: ele contém de fato, toda a humanidade. No que ela tem de mais e menos humano. “História da Angústia” fala do evangelista Lucas internado em um manicômio, Saul diante de Davi e Golias, a família Graco tentando fazer reforma agrária no império Romano, Parsifal, e ainda não podia faltar Hamlet.

A parte que mais chocou foi que entre os contos escritos havia um grande capítulo chamado A GIGANTESCA MORGUE apresentando apenas notícias reais com assassinatos (sem motivos, passionais, familiares), massacres (raciais, ideológicos, étnicos, políticos, religiosos, atômicos), atentados frustados ou não, suicídios, serial killers, violência sexual…126 fatos que em meio à ficção chocam por sabermos que existiram e infelizmente alguns não muito distantes de nós.

O psicólogo austríaco Freud cunhou o termo Todestrieb, pulsão de morte em português e também relacionada com o deus Tânato (grego transl. Thánatos). Tive um colega de universidade que trabalhava com os ritos da morte na área de antropologia, e o presenteei com um livro que se chama “O Dicionário dos Suicidas Ilustres”. Nele, o autor lista não apenas aqueles que conseguiram, mas aqueles que tentaram se suicidar (alguns tiveram vida longa):

Kurt Cobain, Ernest Hemingway, Ana C. Cesar, Reinaldo Arenas, Jacqueline Kennedy Onassis, Aristóteles, Roland Barthes, Jean Michel Basquiat, Walter Benjamin, Cleópatra, Florbela Espanca, Patrícia Galvão, a Pagu, Gogol, Adolf Hitler, Judas, Getúlio Vargas, Akira Kurosawa, Virgínia Woolf, Stefan Sweig, Anna Karenina, Romeu & Julieta – alguns personagens da vida real e/ou da ficção marcam mais que outros.

Tenho interesse pelo tema, e no início do Clube da Leitura promovido pela Baratos da Ribeiro tive um dos primeiros contos a ser publicado online em 2007: http://baratosdaribeiro.com.br/blog/?p=77
Mais tarde com um blog próprio, o primeiro volume de contos lançado na FLIP e com o segundo volume no forno; outro conto nesta mesma linha: http://www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura/2011/06/17/para-fora-por-gloria-celeste/

A angústia e estranhamento estão presentes em outro post que fiz aqui sobre Woyzeck, que luta para se humanizar enquanto o ambiente o bestializa violentamente.

Teremos que por muito tempo ainda conviver com palavras como mentira, bullying, abuso de poder e autoridade, assédio moral e sexual, corrupção, coerção, coação, burn out, injúria, calúnia, difamação. Aqui não existe a morte física, mas a psicológica que em muitos casos leva ao desejo de autodestruição.

Por outro lado existe um espectro que puxa a humanidade para frente e nos faz melhores, ou querer ser melhores com ações que contrastam em muito com as descritas “na gigantesca morgue”.

Quem realmente perde algo, e tem a impressão de se tornar um quase nada, vazio é possuído pelo desespero (experiência própria e de muitos seres viventes). Experiência vivida, conhecimento adquirido.  O instinto de preservação nos dá após algum tempo a possibilidade de reconstruir e caminhar aprendendo o que somos. Inteiros e com luz própria.

Se quer ler mais sobre a morte, uma boa indicação de leitura são os livros IV e IX das Confissões de Santo Agostinho.

Como trilha sonora gosto de finais felizes… lembra de Tower of Strength?

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Zigeunerleben – forma de traduzir

Por muito tempo cantei em coros de música clássica. Neste último fiz traduções entre 2002 e 2004, além de orientar cantores que nunca tiveram contato com a língua alemã a pronunciar as músicas. A cereja do bolo: na apresentação de POMERODE (cidade de Santa Catarina onde ainda se fala alemão)  alguém da platéia comentou ao final: ” Nossa, parece que eles fizeram anos de Goethe Institut.” Quase pulei de alegria!

Mas a conversa aqui é outra… o processo de produzir a tradução.  Nesta tive que trabalhar o texto de forma quase literal, pois para o cantor a entonação da nota é importante, bem como saber o que e quando está dizendo. E aí que a tradução livre perde espaço.

Preste bem atenção: não estou dizendo que o “tradutor traidor” não deve existir. O que para textos longos pode ser ótimo (dependendo de quem traduz), inclusive enriquecedor… neste caso particular perde-se alguma coisa se “interpretarmos demais” o verso.

Arrumando meus arquivos achei a primeira versão do trabalho.

Quase esqueci de traduzir:  Zigeunerleben significa vida de cigano e é de Robert Schumann. O vídeo que publiquei é de uma competição na Áustria.

Im Schatten des Waldes, im Buchengezweig,

Da regt’s sich und raschelt und flüstert zugleich.

Es flackern die Flammen, es gaukelt der Schein

um bunte Gestalten, um Laub und Gestein.

Nas sombras da floresta, nos ramos das faias,

Lá se movem e fazem ruido e sussurram ao mesmo tempo.

As chamas bruxuleiam/tremulam, ilusionando a luz/brilho

em vultos/formas multicoloridas, nas folhagens e rochas.

.

Da ist der Zigeuner bewegliche Schaar

mit blitzendem Aug’ und mit wallendem Haar,

gesängt an des Niles geheiligter Fluth,

gebräunt von Hispaniens südlicher Glut.

Lá o cigano é um bando em movimento

com olhos que piscam e com cabelos ondulados,

canticos d/nas torrentes santificadas do Nilo,

bronzeados do/pelo ardor espanhol do sul.

.

Um’s lodernde Feuer in schwellendem Grün,

da lagern die Männer verwildert und kühn,

da kauern die Weiber und rüsten das Mahl,

und füllen geschäftig den alten Pokal.

Nas chamejantes(ardentes labaredas) do fogo na soleira/umbral verde,

lá acampam os homens selvagens e audazes,

lá as mulheres acocoram-se e preparam a refeição,

e enchem solicitamente a velha taça.

.

Und Sagen und Lieder ertönen im Rund,

wie Spaniens Gärten so blühend und bunt,

und magische Sprüche für Not und Gefahr

verkündet die Alte der horchenden Schaar.

E as lendas e canções ressoam na roda,

como jardins espanhóis tão florescentes e multicoloridos,

e adágios mágicos de urgência e perigo

preconizados pelos velhos para o bando atento

.

Schwarzäugige Mädchen beginnen den Tanz.

Da sprühen die Fackeln im rötlichen Glanz.

Es lockt die Guitarre, die Cymbel klingt,

wie wild und wilder der Reigen sich schlingt!

Meninas de olhos negros começam a dança.

Lá faíscam os archotes com brilho avermelhado.

A guitarra chama, os címbalos soam,

como precipitada e selvagemente as rodas se entrelaçam!

.

Dann ruh´n sie ermüdet vom nächtlichen Reih’n.

Es rauschen die Buchen in Schlummer sie ein.

Und die aus der glücklichen Heimat verbannt,

sie schauen im Traume das glückliche Land.

Então acalmam-se, fatigados do Reno noturno??.

As faias sussuram canções de ninar para eles

Que foram da pátria (terra natal) desterrado/exilado,

olham em sonhos para o país afortunado

.

Doch wie nun im Osten der Morgen erwacht,

verlöschen die schönen Gebilde der Nacht,

es scharret das Maulthier bei Tagesbeginn,

fort zieh’n die Gestalten, wer sagt dir wohin?

Agora como sempre acorda no leste das manhãs,

extinguem-se as belas/bonitas criações da noite,

o mulo scharret??? com começo do dia,

foram-se os vultos na marcha, quem te diz para onde?

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