Woyzeck – filme de Werner Herzog

Woyzeck matou a esposa com várias facadas

Indicado para a Palma Ouro, mas quem levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante em Cannes foi Eva Mattes. Outros prêmios: Sant Jordi (melhor interpretação em filme estrangeiro para Klaus Kinski); Guild Film Award – Silver (filme alemão).

O filme inicia ressaltando como a cidade é pequena, assim como, no decorrer do filme, as pessoas que a habitam. Pequenos sentimentos, atitudes e pensamentos. Apenas Woyzeck se exprime sobre esta sensação, mas cada reflexão sua é tratada como delírio ou como conversa de “gente pequena”. As cenas são lentas, e todo o ambiente do filme é opressivo.

O capitão, como Woyzeck, sente que existe o incômodo – se angustia e deprime -, mas simultaneamente fica confortável com a posição social e ganhos que a patente militar lhe permite usufruir. Afirma que o soldado é uma pessoa boa, mas não tem moral.

Na primeira cena, o treinamento do exército é exaustivo e o miliciano (soldado em patente alguma) é condicionado a obedecer sem se importar com as humilhações que sofre. Esse esforço físico passa no decorrer do filme a ser um problema de saúde, social e de afinamento psicológico/filosófico.

Andreas é o que se pode chamar de pessoa mais próxima, mas também ausente, por não compreender as reflexões do amigo.  Às vezes ajuda, mas na maior parte do tempo não tem noção do que o amigo passa. Enquanto cortam gravetos para o capitão, o “oco” que Woyzeck sente pode ser traduzido por um vazio existencial que ele não quer viver; mas está condenado a isto pelo ambiente em que vive e pela condição subumana a que é submetido.

O filho de Woyzeck e Marie está doente febril. Ela reclama que o soldado não cuida da criança e é um pai ausente. O médico também trata Woyzeck como uma cobaia, inclusive controlando quando o soldado tem ou não de urinar. (mais uma vez, por uma obediência que precisa ser cega e sem argumentações). O personagem pensa sobre a natureza e se angustia – quando algo é e também não é. Ele ouve as vozes que pensa que são da natureza e que são na realidade seus conflitos interiores. O médico entusiasmado acena com mais dinheiro para que ele obedeça estritamente às suas ordens e afirma que ele possui Aberatio mentalis partialis: “idéia fixa com condições geralmente razoáveis”.

Em todo o filme a linguagem do personagem é determinista/naturalista: estrangeirismos do médico. O povo fala como no mundo real com expressões dialetais, palavrões. A linguagem seria pré-determinada pelo ambiente ou pelas posses de cada personagem. Mesmo assim, nota-se uma valorização da personalidade lingüística especialmente do povo menos favorecido.

Depois de comer apenas ervilhas por três meses, Woyzeck tem os cabelos ralos e começa a ter tremores. O médico acha o fato maravilhoso e o exibe aos seus alunos como se fosse uma cobaia da sua grande teoria. O doutor encarna a opressão fazendo com que Woyzeck piorasse de saúde apenas para comprovar sua teoria. Apesar disso, o médico não tinha consciência do que estava fazendo.

Na demonstração, Woyzeck não quer fazer algo e o doutor o chama de animal e o desafia: “Você quer falhar igual ao gato? Puxo suas orelhas!” A condição de adestramento e submissão é a mais evidente em todo o filme. O soldado obedece. E a cada vez que piora no quadro de saúde, o médico dá um aumento… como o miliciano precisa do dinheiro para sustentar a família, continua comendo apenas as ervilhas que fazem tão mal a ele.

Marie admira o garbo, o brilho do tamboreiro-mor, mas não se entrega a ele com paixão. Ela mostra arrependimento quando está com os brincos presenteados pelo tamboreiro-mor e o marido aparece lhe entregando todo o soldo. Pensando nos seus atos, Marie lê a Bíblia e pensa em não mais pecar. Mas o brilho da farda e a ilusão de que será uma grande dama nos salões da pequena cidade a faz mudar de idéia. A natureza e a animalidade se mostram fortes neste aspecto – ela o elogia dizendo que tem postura de leão e que parece um boi. Marie esquece o arrependimento e a animalidade vence.

Logo após Woyzeck desconfiar da fidelidade de Marie com as ironias dos que o cercam, ele tira satisfações com a esposa, tentando encontrar torturadamente um sinal da traição. Ele vai ao bar apenas para que seus olhos comprovassem, e tem um choque. O tamboreiro-mor dança e agarra a sua esposa no local público e a única reação que Woyzeck tem é sair em correndo em disparada. O bêbado arrebatado fala: tudo é podre, inclusive o dinheiro. Como o soldado afirma anteriormente, apenas quem é rico possui virtudes, quem não tem dinheiro apenas segue a natureza.

Woyzeck não aparece há alguns dias e isso deixa Marie preocupada. Na alucinação de ouvir a natureza que para ele é externa, e não o seu interior acossado e resolve apunhalar a esposa traidora. Voltando para a o bar, Woyzeck se submete as provocações do tamboreiro-mor que está bêbabo e o desafio deixa o soldado no limite quando o superior tenta submetê-lo fisicamente. Woyzeck dá um tapa no rosto do tamboreiro-mor. Até que o aguardenteiro separa a  briga que ia começar. Esta é uma das cenas emblemáticas do filme: o soldado tenta, mas não consegue frear a brutalidade opressiva do ambiente que o cerca.

Na caserna, o miliciano torturado e que não dorme pede ajuda a Andreas, que só quer descansar. O companheiro aconselha Woyzeck a que se sujeite á situação: deixe que eles dancem… Já planejando o que irá fazer depois de comprar a faca, Woyzeck doa algumas coisas de valor para o amigo Andreas.

Woyzeck sofre porque se sente impotência de lutar contra seu grande inimigo: o mundo que o cerca, seu ambiente. Ele sente o Selbstentfredung – como ser humano se estranha, sente “estranhamento de si mesmo” ao querer se humanizar enquanto o ambiente o bestializa. O desfecho do filme mostra o personagem se rendendo ao que era esperado fazer.

Leia mais sobre a relação conturbada entre ele e Klaus Kinski, hoje mais conhecido como o pai da sex symbol Nastassja Kinski. O  cineasta Herzog esteve no Brasil este mês http://2001video.empresarial.ws/blog/?p=1228

Revisado pela Prof. Doutora de Língüística Tânia Mikaela Garcia

REFERÊNCIAS

WOYZECK. Diretor e roteiro: Werner Herzog. Produção: Joschi Arpa. Alemanha: Werner Herzog Filmproduktion, Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF), 1979. Meio digital, 82 minutos, língua alemã, legendas em português.

Sobre fuiobrigada

Escrever dói e é compulsivo. Delirium, tremens.

Publicado em 29/05/2011, em Uncategorized e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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